As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 ficaram marcadas como a maior tragédia climática da história do estado. Enquanto os impactos humanos e econômicos foram rapidamente contabilizados, outra pergunta permanece em aberto: o que aconteceu com a biodiversidade gaúcha?
A resposta começou a ser construída na última semana, quando pesquisadores de universidades, organizações da sociedade civil e órgãos ambientais se reuniram em Porto Alegre para apresentar os primeiros resultados do Projeto Emergência RS, iniciativa coordenada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para avaliar os efeitos das enchentes sobre espécies e ecossistemas do estado.
O projeto reúne mais de 30 pesquisas iniciadas em 2025 e prevê três anos de monitoramento. O objetivo é compreender como o desastre afetou populações de peixes, mamíferos, aves, insetos, répteis e anfíbios, além de gerar informações que possam orientar ações de conservação, restauração ambiental e preparação para futuros eventos extremos.
A iniciativa surge em um momento em que cientistas alertam cada vez mais para os impactos diretos das mudanças climáticas sobre espécies e ecossistemas. Casos recentes mostram que um único desastre pode provocar perdas significativas em populações já vulneráveis.
Em novembro de 2025, por exemplo, um ciclone na Indonésia matou cerca de 7% de toda a população selvagem do orangotango-de-Tapanuli, o grande primata mais ameaçado de extinção do planeta. A tempestade provocou deslizamentos de terra que mataram aproximadamente 58 indivíduos da espécie e destruíram milhares de hectares de floresta no ecossistema de Batang Toru.
O episódio chamou a atenção da comunidade científica por demonstrar como um único evento climático extremo pode alterar drasticamente o futuro de uma espécie ameaçada. Embora os contextos sejam diferentes, o episódio reforça a importância de iniciativas como o Projeto Emergência RS. Sem monitoramento científico, muitos dos efeitos das enchentes sobre a fauna e a flora da região podem permanecer invisíveis por anos.
Segundo o ICMBio, os estudos em andamento investigam desde alterações em habitats naturais até possíveis consequências indiretas das enchentes, como contaminação ambiental e aumento do risco de doenças em animais silvestres. As informações produzidas podem auxiliar não apenas a conservação da biodiversidade, mas também políticas relacionadas à saúde pública.
Algumas pesquisas utilizam tecnologias como DNA ambiental e análises genômicas para detectar mudanças em populações de espécies e acompanhar processos de recuperação de ecossistemas. Além de identificar perdas e transformações provocadas pela tragédia, o projeto busca entender quais áreas e espécies são mais vulneráveis a fenômenos climáticos extremos.
A expectativa é que os resultados permitam desenvolver modelos capazes de prever impactos futuros, identificar regiões prioritárias para conservação e orientar estratégias de adaptação em um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.
Durante a oficina realizada em Porto Alegre, os participantes também discutiram desafios enfrentados pelas equipes de campo e formas de aprimorar protocolos de resposta a desastres ambientais.
“É preciso compreender os impactos e pensar em protocolos. No caso das áreas naturais e das espécies ameaçadas, entender quais são as regiões prioritárias para restauração ambiental e conservação. Esse tipo de pesquisa permite priorizar estas áreas”, diz Cecília Cronemberger, coordenadora-geral da CGPEQ.
À medida que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes e intensos, especialistas defendem que compreender seus efeitos sobre os ecossistemas será tão importante quanto medir seus impactos econômicos e sociais. No Rio Grande do Sul, o desafio agora é descobrir quais marcas as enchentes de 2024 deixaram na biodiversidade local, e como evitar que elas se tornem permanentes.
Fonte: Revista Galileu