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EMISSÃO DE GASES

Redução de metano pode funcionar como ‘freio de emergência’ para desacelerar crise climática

Em meio ao risco de um “super” El Niño e à intensificação da crise climática, especialistas apontam redução das emissões de metano como uma das medidas mais rápidas disponíveis contra o aquecimento global

15 de junho de 2026
Nilson Cortinhas
4 min. de leitura
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Foto: Mbaysan/Getty Images

Enquanto o mundo observa o avanço de eventos climáticos extremos e cientistas alertam para a possibilidade de um “super” El Niño nos próximos meses, há quem defenda que ainda existe uma medida capaz de desacelerar parte do aquecimento global em um prazo relativamente curto: reduzir as emissões de metano.

Responsável por cerca de um terço do aquecimento atual do planeta, o gás passou a ocupar posição estratégica nas discussões climáticas internacionais por ter um comportamento diferente do dióxido de carbono (CO₂). Enquanto o CO₂ permanece na atmosfera por séculos, o metano tem vida útil muito menor, cerca de 12 anos, o que faz com que sua redução tenha efeitos mais rápidos sobre o clima.

“A mensagem principal é simples e urgente: temos um freio de emergência climática disponível agora, e ele se chama metano”, considerou o especialista do Global Methane Hub, Henrique Bezerra, em entrevista exclusiva ao Um Só Planeta.

Bezerra argumenta que o mundo entra em uma fase crítica de combinação entre aquecimento global e fenômenos climáticos naturais potencializados pelas mudanças climáticas.

“O mundo está diante de um possível super El Niño que vai se combinar com um planeta já aquecido, e os impactos serão mais intensos e imprevisíveis do que qualquer coisa que já vimos. Secas na Amazônia, chuvas extremas no Sul, insegurança alimentar, migrações forçadas. Esse é o cenário se não agirmos”, disse.

A discussão foi um dos eixos do Fórum Freio de Emergência Climática, realizado durante a Semana do Clima do Rio, no início de junho.

Por que o metano ganhou protagonismo?

Nos últimos anos, o metano deixou de ser tratado apenas como um tema técnico para ganhar espaço na diplomacia climática internacional. A razão está justamente no potencial de resposta mais rápida ao aquecimento global.

“O metano sozinho é responsável por pelo menos um terço da mudança climática. Se priorizarmos mitigação de metano, junto à descarbonização e transição energética, teremos impactos climáticos em dez, vinte anos”, estimou Bezerra. Isso não significa abandonar a redução de CO₂ ou a transição energética, mas reconhecer que o mundo precisa atuar simultaneamente em diferentes frentes.

“Quanto mais demoramos a descarbonizar, pior o clima fica. Precisamos fazer os dois simultaneamente”, afirmou.

O contexto é de preocupação científica com os impactos do aquecimento global. Estudos recentes, por exemplo, apontam riscos associados ao enfraquecimento da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), sistema oceânico responsável por distribuir calor pelo planeta e influenciar regimes de chuva em regiões como Amazônia e Nordeste brasileiro.

Brasil

O Brasil ocupa posição estratégica nesse debate por concentrar setores essenciais ligados às emissões de metano. Hoje, a pecuária responde por mais de 70% das emissões brasileiras do gás. Os resíduos urbanos representam cerca de 20%, enquanto o setor energético responde por aproximadamente 4%.

Henrique Bezerra afirma que o país pode transformar a agenda em protagonismo climático internacional. “O Brasil está no centro da equação climática global. A hora de acionar o freio de emergência é agora”, declarou.

Na avaliação do especialista, a agropecuária brasileira tem potencial para reduzir emissões sem comprometer produtividade. “Mitigar metano na agropecuária não significa reduzir produção, mas produzir mais emitindo menos metano por quilo de carne e leite produzido”, afirmou.

Entre as medidas defendidas estão melhoria de pastagens, genética animal, nutrição e investimentos em produtividade rural.

Solução climática imediata

Apesar de a pecuária concentrar maior volume de emissões, o setor de resíduos urbanos é citado como a área com maior potencial de redução rápida. “É onde temos a melhor combinação de tecnologia disponível, baixo custo e capacidade de ação imediata”, explicou Henrique Bezerra.

Medidas relativamente simples poderiam gerar impacto climático significativo, além de benefícios econômicos e sociais. Entre as soluções apontadas estão: redução do desperdício de alimentos; ampliação da compostagem; coleta seletiva de resíduos orgânicos; produção de biogás e biometano; além de reaproveitamento de resíduos na agricultura.

“Com compostagem local, cidades economizam transporte e ainda produzem biofertilizante, cada vez mais valioso com a crise de fertilizantes no mercado internacional”, afirmou. O especialista também destaca que a economia circular, ligada aos resíduos urbanos, pode gerar empregos e reduzir desigualdades. “O resultado é baixo custo ou até lucro, menos metano, e pelo menos três vezes mais empregos que o sistema linear que temos hoje”, disse.

Energia e transição climática

O setor energético também aparece como estratégico das discussões, especialmente, diante do avanço da transição energética global. Henrique Bezerra afirma que reduzir vazamentos e emissões de metano na cadeia de petróleo e gás pode funcionar como uma das medidas climáticas mais rápidas disponíveis hoje. “Não existe liderança na transição energética sem enfrentar o metano”, reiterou.

Inclusive, o Brasil discute atualmente mecanismos regulatórios para reduzir queima, ventilação e vazamentos no setor energético.

“Não podemos evitar o próximo El Niño”

Mesmo defendendo medidas urgentes, parte dos impactos climáticos é inevitável no curto prazo. “Um super El Niño está se aproximando, como os climatologistas advertem, e não podemos evitá-lo agora. Mas podemos nos preparar: cidades, agricultores, infraestrutura”, afirmou Henrique Bezerra.

Redução acelerada do metano pode funcionar como uma das poucas estratégias capazes de diminuir riscos climáticos nas próximas décadas. “Por isso chamamos o metano de freio de emergência para a crise climática, com impacto em uma ou duas décadas, não séculos”, concluiu.

Fonte: Um só Planeta

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