O Reino Unido vive sinais do que pode ser a primavera mais precoce já registrada. Flores desabrochando antes do esperado, aves iniciando a reprodução semanas antes do padrão histórico e insetos surgindo fora de época indicam uma mudança consistente no ritmo das estações.
Dados do Nature’s Calendar, plataforma de ciência cidadã que monitora eventos sazonais desde 2000, mostram recordes em diferentes indicadores em 2026. A desova de rãs, a nidificação de melros, o florescimento de aveleiras e o surgimento de borboletas ocorreram mais cedo do que em qualquer outro ano do século.
Em Wytham Woods, área de estudo em Oxfordshire, o primeiro registro de postura de ovos por chapins-reais foi feito em 23 de março — três dias antes do recorde anterior em uma série histórica de 80 anos. Desde a década de 1960, a média de início da reprodução dessa espécie avançou 16 dias, aponta reportagem do jornal britânico The Guardian.
O fenômeno não se restringe ao Reino Unido. Na Holanda, pesquisadores também registraram antecipação recorde na reprodução de aves, sugerindo uma mudança mais ampla no norte da Europa.
Para cientistas, uma das preocupações é o chamado “descompasso fenológico”, quando espécies que dependem umas das outras deixam de sincronizar seus ciclos. Aves, por exemplo, precisam que a eclosão dos ovos coincida com a abundância de lagartas, principal alimento dos filhotes. Neste ano, porém, há sinais de que algumas espécies estão conseguindo se ajustar.
As lagartas, aliás, estão mais desenvolvidas do que o esperado para esta época. O naturalista Matthew Oates relata a presença de indivíduos relativamente grandes de espécies típicas do verão. “Essas lagartas deveriam ser tão pequenas que passariam despercebidas”, afirmou.
O avanço também aparece no calendário das borboletas. O primeiro registro da espécie conhecida como orange-tip, considerada um marco da primavera, ocorreu em 18 de março. Há 50 anos, a data média era 16 de abril. Oates avalia que espécies de verão podem surgir já em maio, algo não observado desde 1893.
Segundo Alex Marshall, do Nature’s Calendar, a tendência de antecipação é consistente. “A primavera está chegando cada vez mais cedo ano após ano”, disse. Em 2025, apenas um dos eventos monitorados não ocorreu antes da média histórica.