As mudanças climáticas podem estar a acelerar a evolução de algumas espécies, sobretudo daquelas com ciclos de vida curtos.
A conclusão é de uma investigação conduzida por cientistas da Universidade de Liverpool e publicada na Molecular Biology and Evolution. O estudo indica que o calor extremo não afeta apenas os organismos expostos: pode também deixar marcas biológicas que passam para as gerações seguintes.
O trabalho analisou populações de mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) recolhidas em regiões com condições climáticas distintas: Espanha e Finlândia. Os resultados mostram que uma única vaga de calor pode alterar a expressão de 23 genes, com efeitos detectáveis até à quarta geração.
Estas mudanças, segundo a National Geographic, não resultam de mutações no ADN, mas de mecanismos epigenéticos, isto é, processos que ativam ou desativam genes de forma rápida em resposta ao ambiente.
Os investigadores concluíram que as moscas oriundas de zonas mais quentes, como Manzanares, responderam melhor ao stress térmico. Os seus descendentes aceleraram o desenvolvimento, atingindo a maturidade mais cedo e aumentando assim as probabilidades de sobrevivência num contexto de calor extremo. Já as populações da Finlândia, menos habituadas a temperaturas elevadas, revelaram uma adaptação mais desorganizada e menos eficaz.
A equipa liderada por Ewan Harney defende que estes efeitos transgeracionais podem favorecer a seleção natural de indivíduos mais aptos e, desse modo, facilitar a evolução. Em vez de um processo lento, a evolução poderá estar a ser empurrada para ritmos mais rápidos pela pressão imposta pelo aquecimento global.
Ainda assim, os autores alertam para os riscos. Uma aceleração artificial da evolução pode aumentar as diferenças entre populações da mesma espécie, ao ponto de comprometer a compatibilidade reprodutiva entre grupos que vivem em ambientes distintos. Isso poderá agravar a fragmentação biológica e ameaçar a estabilidade dos ecossistemas.
O estudo sugere também que as espécies com vidas curtas estão em melhor posição para acompanhar a rapidez das mudanças climáticas, uma vez que se reproduzem mais depressa e acumulam adaptações em menos tempo. Pelo contrário, organismos com ciclos de vida longos, como os seres humanos, terão menor margem para responder biologicamente a esta pressão.
Perceber que espécies e populações conseguem adaptar-se, e quais ficam para trás, será decisivo para orientar estratégias de conservação na União Europeia e noutros contextos internacionais, num momento em que o clima está a transformar não só os habitats, mas também os próprios mecanismos da evolução.
Fonte: Zap