Emerge aos poucos entre cientistas o consenso sobre mais um efeito nefasto do aquecimento global: o enfraquecimento da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês), corrente oceânica responsável por amenizar extremos climáticos. Ao transportar água quente do sul para o norte, a Amoc ajuda a atenuar o inverno europeu. Ao trazer água fria para as costas do Brasil e da África, contribui para verões mais amenos dos dois lados do Atlântico Sul.
Desde 2001, quando foi pela primeira vez mencionada no relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a Amoc preocupa os cientistas. Estudos recentes confirmaram enfraquecimento mais intenso do que se imaginava. Mesmo que todas as metas de redução de emissões sejam cumpridas, ela perderá de 43% a 59% da força até 2100, segundo estudo da Universidade de Bordeaux e do centro de pesquisas Inria publicado em abril na revista Science Advances.
A razão disso é o degelo na Groenlândia e no Atlântico Norte, que despeja água doce no oceano. Com menos sal, as águas ficam menos densas e não penetram mais fundo no mar, reduzindo a velocidade de circulação da Amoc. O debate está centrado no ritmo e nas implicações do fenômeno. Não se preveem mudanças bruscas, mas a transformação em curso pode ter consequências dramáticas. “É tempo de levar as evidências a sério”, afirmam os pesquisadores Stefan Rahmstorf e Levke Caesar, do Instituto de Pesquisa sobre Impacto do Clima de Potsdam.
Seis estudos mencionados por eles coincidem na conclusão: o fluxo da Amoc entrou em declínio a partir do século XIX, com o avanço da Revolução Industrial, quando começaram a aumentar as emissões de gases de efeito estufa. Não é certa, porém, a inferência de que o enfraquecimento da Amoc se deva ao aquecimento global, afinal só há monitoramento contínuo para as últimas duas décadas. Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que “múltiplas linhas de evidências” sustentam que a Amoc está mesmo em desaceleração, e ela só tenderá a se agravar com temperaturas mais altas.
Há intenso debate científico sobre a intensidade dessa desaceleração e seus desdobramentos. Modelos climáticos sugerem que, sem a Amoc, o norte da Amazônia atravessaria uma grande seca, e uma faixa da Caatinga do Maranhão ao Rio Grande do Norte sofreria com tempestades torrenciais. “Seria muito bom poder dizer que isso tudo é alarmismo e exagero por parte dos cientistas, mas infelizmente não podemos”, diz o especialista em paleoclimatologia Cristiano Chiessi, da USP.
Em seu último trabalho, publicado na revista científica Nature Communications, Chiessi relata que o último desligamento da Amoc ocorreu antes da Era do Gelo, há mais de 10 mil anos, quando a presença humana ainda não havia deixado suas marcas na Terra. Agora, prenunciam-se impactos na agropecuária e na produção de energia. É preciso dedicar recursos e tempo para estudá-los a fundo, gerando o conhecimento necessário para que o Brasil e o mundo possam estar preparados.
Fonte: O Globo