EnglishEspañolPortuguês

AQUECIMENTO GLOBAL

Oceanos mais ácidos podem estar diminuindo o cérebro de animais marinhos inteligentes

Estudo identificou que os cérebros de lulas e polvos expostos à altos níveis de gás carbônico podem sofrer uma redução de 50% do seu volume, com grave prejuízo à visão e seus hábitos alimentares

9 de julho de 2026
Júlia Sardinha
3 min. de leitura
A-
A+
Foto: Su Huai

A acidificação dos oceanos – nome dado à elevação dos níveis de gás carbônico (CO2) na atmosfera, um efeito do aquecimento global – ganharam maior projeção nos últimos anos, sobretudo no que diz respeito aos seus impactos em recifes de corais. Agora, a discussão retorna, mas com um impacto até então desconhecido: a acidificação do oceano tem prejudicado a anatomia do cérebro de animais. No caso dos cefalópodes – como as lulas e os polvos –, animais marinhos conhecidos por sua inteligência, essa redução do volume cerebral em cerca de 50%.

Dados preliminares apresentados na conferência da Sociedade de Biologia Experimental em Florença, na Itália, sugerem que a lula-de-recife-de-barbatana-grande (Sepioteuthis lessoniana), por exemplo, apresentou alterações significativas na fisiologia cerebral. Até o momento, os pesquisadores observaram que os impactos foram mais pronunciados nas áreas responsáveis pela informação visual, o que levou até mesmo à mudanças no comportamento alimentar dos animais.

Esses resultados foram obtidos a partir da criação de indivíduos da espécie de lula em tanques localizados na Estação de Pesquisa Marinha da Academia Sinica, em Taiwan. Em um deles, as lulas foram criadas em águas que simulavam o potencial hidrogeniônico (o famoso “pH”) do oceano atual, isto é, cerca de 8,2.

No outro tanque, as lulas foram criadas em águas que projetavam o oceano no ano de 2100 sob um cenário iminente de mudanças climáticas, o que resultou em um pH menor e mais ácido, de 7,8. Após 90 dias, a anatomia cerebral dos cefalópodes foi analisada por meio de ressonância magnética de difusão (RMd).

“Percebi imediatamente que seus cérebros tinham metade do tamanho e precisei verificar o resultado do diagnóstico”, contou Garett Allen, da Universidade Acadia (Canadá), em comunicado. “Foi uma verdadeira surpresa, eu não esperava isso de jeito nenhum”.

Ex-prodígios

Para além dos prejuízos à saúde desses animais, a acidificação dos oceanos tem colocado em xeque um conhecimento científico já bem difundido: a de que os cefalópodes integram o grupo de animais mais inteligentes que vivem no oceano.

Os efeitos da acidificação, até o momento, foram identificados apenas na anatomia neural desse grupo de animais. Efeitos do CO2 no tamanho corporal total, por exemplo, não foram identificados durante a pesquisa.

Isso quer dizer que o volume cerebral foi normalizado pelo comprimento do manto para compensar a variação no tamanho do corpo. Essa diminuição foi ocorreu em todo o órgão, mas as maiores reduções foram encontradas em regiões identificadas como lobos ópticos e tratos ópticos, que apresentaram volumes 52% e 62% menores, respectivamente, em comparação com as lulas criadas em condições oceânicas modernas.

As alterações não param por aí. Estudos anteriores revelaram que o aumento da exposição à níveis de CO2 pode afetar comportamentos de caça das lulas-de-recife-de-barbatana-grande. Acontece que esses animais dependem da visão para rastrear e capturar suas presas e, quando esse sentido está prejudicado, a alimentação é prejudicada.

“Acreditamos que a menor disposição para se alimentar possa estar ligada a uma diminuição da acuidade visual. Não por causa da retina em si, que parece permanecer a mesma, mas talvez porque o lobo óptico esteja encolhendo”, explicou Allen.

O encolhimento é o que modifica os hábitos alimentares do animal conforme o período de tempo em que a lula permanece exposta à elevadas concentrações de CO2. Um contato agudo de sete dias, por exemplo, resulta em uma redução de 65% nos comportamentos de caça. Já as lulas expostas por 90 dias completos desde a eclosão apresentam uma redução de 42%.

Causas

A relação entre a redução do volume dos cérebros dos cefalópodes e o aumento da acidificação oceânica são quase que irrefutáveis, mas nem todas as respostas já foram encontradas.

Embora os cientistas ainda estejam pesquisando quais são os fatores que causam essa diminuição na anatomia cerebral dos cefalópodes, Allen acredita que a explicação esteja nas limitações energéticas no cérebro ou esteja relacionado a danos oxidativos. Caso as suposições do pesquisador se concretizem, isso poderia significar que o cérebro é incapaz de transmitir informações corretamente, o que justificaria as anormalidades das lulas na alimentação.

Fonte: Revista Galileu

    VOCÊ VIU?

    IR PARA O TOPO