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CRISE HÍDRICA

A “caixa d’água do Brasil” está secando e os primeiros a desaparecer são os anfíbios

Mudanças climáticas e práticas agrícolas são alguns dos fatores que colocam a biodiversidade do Cerrado em risco.

7 de julho de 2026
Tathyane Melo
5 min. de leitura
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Foto: Reuber Brandão

Você já cruzou com um sapo no quintal ou avistou uma perereca colada na parede numa noite chuvosa e sentiu aquele impulso de sair correndo? Supere o susto por um instante e saiba que esses pequenos saltadores operam como sentinelas da saúde do Cerrado. E o alerta que eles emitem hoje é grave. Um novo levantamento do sistema de avaliação SALVE, conduzido pelo ICMBio e pelo Ministério do Meio Ambiente, revela que três espécies de anfíbios já figuram no último estágio antes da extinção na natureza, classificadas como “Criticamente em Perigo”, “Em Perigo” e “Vulneráveis”.

Entre elas, destaca-se a Boana buriti, a perereca-buriti ou perereca-de-pijama, uma habitante do Cerrado goiano que agora carrega o peso da classificação “Vulnerável”.

Em entrevista ao Jornal Opção, o professor Fausto Nomura, da Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em comportamento e ecologia de anfíbios anuros, mapeou o problema. “Essas espécies, na verdade, estão localizadas no entorno da Chapada dos Veadeiros. Como, por exemplo, a Boana buriti, que inclusive tem algumas populações dentro do parque, que é uma espécie de perereca de porte médio”, situou.

Nomura acrescenta à lista as rãzinhas do entorno e um grupo curioso que a ciência apelidou de “pererecas infernais”. O professor explica ainda qual seria o animal mais pressionado de Goiás: justamente a perereca-de-pijama, que ocorre no entorno do Distrito Federal. “É provavelmente um dos animais mais ameaçados hoje aqui do grupo”, reforçou.

Enquanto Fausto Nomura detalha a radiografia local, a Dra. Letícia Martins Rabelo e Marcelo Lisita Junqueira, do grupo Óia Passarinhar, ampliam a lente. Eles lembram que o Cerrado concentra 363 espécies avaliadas como ameaçadas, um conjunto que abraça aves, mamíferos, répteis, peixes e incontáveis invertebrados. “Esse dado evidencia que praticamente todos os grandes grupos de animais estão sendo afetados pela perda e degradação dos ambientes naturais”, interpreta Letícia. Marcelo reforça que as 363 espécies representam apenas o retrato do conhecimento científico disponível hoje. “Existem espécies que ainda não possuem dados suficientes para avaliação; novas pesquisas podem revelar outras espécies ameaçadas; algumas poderão melhorar de categoria caso ações de proteção sejam efetivas”, enumera.

Um dos motores dessa crise, explica o professor Fausto, liga diretamente o destino das pererecas ao nosso consumo de água. O Cerrado ostenta o título de “caixa d’água do Brasil” porque a maioria dos grandes rios brasileiros finca suas nascentes nesse bioma. Ocorre que o avanço violento da fronteira agrícola sufoca essas nascentes. “Esse desmatamento acaba assoreando os rios, matando essas nascentes, além do uso intensivo que se faz para irrigação aqui no estado de Goiás”, denuncia o professor.

Ele exemplifica falando sobre a irrigação por pivô, uma técnica que consome e desperdiça enormes volumes de água, eliminando os ambientes úmidos temporários essenciais para a reprodução de anfíbios e peixes, além de deixar mamíferos e aves sem recursos alimentares.

Do outro lado, Letícia e Marcelo apontam um combo de ameaças simultâneas. “Os incêndios muito frequentes ou fora do regime natural, o uso intensivo de agrotóxicos, os atropelamentos em rodovias, a expansão urbana, as barragens, as espécies exóticas invasoras e as mudanças climáticas exercem impactos cada vez maiores”, descreve Letícia. Para Marcelo, essa sobreposição de fatores torna tudo mais perigoso. “Muitas vezes esses fatores atuam simultaneamente, tornando as populações mais vulneráveis do que qualquer ameaça isolada”, completa.

O Cerrado, por reunir enorme riqueza de espécies e elevado endemismo ao lado de uma intensa perda de habitat, carrega o título internacional de hotspot de biodiversidade, o que faz da sua proteção uma corrida contra o relógio. Diante desse cenário, Fausto Nomura projeta duas janelas temporais. A primeira, mais imediata, ainda permite ações coordenadas. Ele defende maior fiscalização, combate profissional aos incêndios e a substituição de práticas agrícolas perdulárias por políticas públicas modernas.

“Muitos desses incêndios são ocasionados por manejo irregular de áreas de plantio, de más práticas”, critica. Já a segunda janela, ligada às mudanças climáticas globais, encontra-se muito mais estreita, pois depende de acordos entre nações e da alteração do padrão de uso de combustíveis fósseis. “Ainda é tempo para evitar a extinção de várias espécies, e mais importante do que isso, evitar a perda dos recursos naturais e climáticos que mantém a nossa qualidade de vida”, pondera o professor.

Para monitorar o que ainda pulsa no bioma, a ciência tem auxiliado com materiais tecnológicos. Letícia descreve as armadilhas fotográficas que registram mamíferos sem interferir em seu comportamento, enquanto Marcelo conta sobre os gravadores autônomos e de inteligência artificial para identificar aves e anfíbios por suas vocalizações. “Drones ajudam a mapear habitats e monitorar áreas de difícil acesso, enquanto análises genéticas e DNA ambiental possibilitam detectar espécies mesmo sem observá-las diretamente”, detalha Marcelo, destacando ainda o papel do sensoriamento remoto no acompanhamento quase em tempo real das alterações da paisagem.

Se o atual ritmo de degradação persistir, o futuro desenhado é de isolamento. “O Cerrado poderá sofrer uma redução significativa da biodiversidade, especialmente das espécies mais especializadas e com distribuição restrita. Muitas populações ficarão isoladas em pequenos fragmentos, tornando-se mais vulneráveis às mudanças climáticas, incêndios e eventos extremos”, adverte Letícia. Marcelo conecta esse colapso diretamente ao cotidiano humano, pois a escassez de água, as secas extremas e a queda na produção de alimentos atingirão em cheio a sociedade.

“A boa notícia é que sabemos o que precisa ser feito; o desafio é transformar esse conhecimento em políticas públicas e ações efetivas”, provoca.

Letícia e Marcelo lembram ainda que esses animais desempenham funções vitais como polinização, dispersão de sementes e controle de insetos. “A perda dessas espécies afeta diretamente o funcionamento do bioma e, consequentemente, a qualidade de vida das pessoas”, reforça Letícia. Fausto Nomura, por sua vez, insiste que a virada depende também do setor produtivo e da educação. “Essa substituição poderia ser incentivada por políticas públicas”, repete.

Fonte: Jornal Opção

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