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POLUIÇÃO

Microplásticos também estão na comida dos animais

Estudo encontrou contaminação em 76% dos alimentos comerciais analisados e revela uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas.

8 de julho de 2026
Marcos Pędłowski
4 min. de leitura
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Foto: Ilustração | Pixabay

A contaminação planetária por plásticos parece determinada a destruir, uma após outra, todas as fronteiras que imaginávamos capazes de nos separar dos resíduos produzidos pela sociedade capitalista. Depois de estudos científicos encontrarem microplásticos nos oceanos, rios, solos, atmosfera, alimentos e até em diferentes órgãos do corpo humano, um novo estudo mostra que eles também estão presentes na comida oferecida diariamente aos animais domésticos.

O estudo Microplastic prevalence in commercially available petfoods, publicado em maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, foi realizado por Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, pesquisadores das universidades britânicas de Sussex e Exeter e dos Laboratórios de Pesquisa do Greenpeace. O trabalho analisou 38 produtos comercializados no Reino Unido para cães, gatos e ouriços, abrangendo 19 marcas, diferentes faixas de preço e alimentos secos e úmidos. Para reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados por episódios isolados de contaminação, os pesquisadores analisaram seis unidades de lotes diferentes de cada produto, totalizando 228 amostras.

Os resultados são muito preocupantes. Das 228 amostras analisadas, 27,6% continham microplásticos confirmados. Quando a análise passa para os produtos comerciais, o quadro se torna ainda mais expressivo: 76,3% dos 38 produtos apresentaram pelo menos uma amostra contaminada e quase metade teve duas ou mais amostras positivas. Entre as 19 marcas analisadas, apenas três não apresentaram microplásticos.

E mesmo esses números podem representar uma subestimativa. Os pesquisadores analisaram apenas um grama de alimento por embalagem, e a metodologia empregada não era capaz de detectar as partículas de dimensões muito pequenas. Uma investigação de volumes maiores e com técnicas mais sensíveis poderia, portanto, revelar uma contaminação ainda mais ampla.

Por outro lado, os pesquisadores também encontraram 95 partículas confirmadas de microplásticos, com dimensões entre 0,09 e 3,8 milímetros. As fibras representaram 60% das partículas, enquanto os fragmentos corresponderam aos 40% restantes. Entre os polímeros mais frequentes estavam o poliéster, a poliacrilamida, o polipropileno e o polietileno, materiais associados à produção têxtil, aos processos industriais e às embalagens.

Essa diversidade de microplásticos sugere que não existe uma única fonte de contaminação. Os microplásticos podem estar entrando nos alimentos por meio dos ingredientes utilizados na fabricação das rações, do desgaste de máquinas, dos ambientes industriais e das próprias embalagens. Poliéster, o polímero mais frequente, pode chegar à cadeia alimentar inclusive por meio da aplicação de lodo de esgoto contaminado em solos agrícolas. Já o polietileno e o polipropileno podem ser liberados durante o processamento, o transporte, o manuseio e a abertura dos pacotes.

Um dos resultados mais inquietantes se refere à composição dos alimentos. Dos 21 produtos que continham os chamados “derivados de carne e de origem animal”, 90,4% apresentaram pelo menos uma amostra positiva para microplásticos. Os três produtos com pior desempenho — aqueles nos quais cinco das seis amostras estavam contaminadas — continham esses derivados.

Os autores também encontraram maior frequência de contaminação nos produtos mais baratos. Isso não significa, entretanto, que comprar rações mais caras resolva o problema, pois os microplásticos apareceram em todas as faixas de preço e em diferentes tipos de alimento. O preço parece influenciar a probabilidade de contaminação, mas não oferece qualquer garantia de proteção.

À primeira vista, os alimentos secos pareceriam representar o maior risco, pois apresentaram mais partículas por grama. Entretanto, quando os pesquisadores calcularam a exposição diária efetiva, o quadro se inverteu. Como os alimentos úmidos possuem menor densidade energética, os animais precisam consumir uma quantidade maior para obter a mesma quantidade de energia e, com isso, acabam ingerindo mais microplásticos.

O problema não termina no organismo dos animais. Parte dos microplásticos ingeridos é eliminada pelas fezes, que podem permanecer diretamente no ambiente ou ser destinadas à compostagem. Com isso, a ração contaminada se transforma em uma nova rota de circulação dos plásticos entre a indústria, os animais e os ecossistemas.

Essa circulação torna-se ainda mais complexa porque alimentos destinados a cães e gatos também são consumidos por animais silvestres. Raposas, texugos e ouriços visitam jardins urbanos e comem alimentos deixados por seres humanos, enquanto centros de reabilitação da fauna utilizam grandes quantidades de rações comerciais. O que parecia ser apenas uma questão de segurança alimentar dos animais domésticos passa, portanto, a constituir também um problema ecológico.

O fato é que o estudo de Thrift e seus colegas mostra que a poluição por plásticos alcançou um estágio no qual aquilo que descartamos retorna continuamente para dentro dos sistemas vivos. O plástico presente nos ingredientes, máquinas, tecidos ou embalagens entra no alimento, é consumido pelos animais, circula pelos organismos e retorna ao ambiente por meio das fezes. A conclusão talvez seja a mais simples e, ao mesmo tempo, a mais incômoda: não existe um “fora” para onde possamos mandar o plástico. Ele volta. E agora sabemos que também volta na tigela de comida dos animais que vivem conosco.

O artigo “Microplastic prevalence in commercially available petfoods”, de Emily Thrift, Tamara Galloway, David Santillo e Fiona Mathews, foi publicado em 21 de maio de 2026 na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, pode ser baixado [Aqui!].

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