Os microplásticos já foram encontrados em rios, oceanos, solos agrícolas, alimentos, água potável e até no corpo humano. Agora, cientistas começam a investigar um novo impacto potencial dessas partículas, muitas vezes, invisíveis: a contribuição direta para o aquecimento da atmosfera terrestre.
Um estudo, publicado nesta semana na revista Nature Climate Change, concluiu que microplásticos presentes no ar, sobretudo, partículas pretas e coloridas, absorvem mais calor do que refletem, funcionando como agentes de aquecimento global.
“Podemos dizer com confiança que, no conjunto, eles atuam como agentes de aquecimento”, afirmou o professor de ciências da Terra da Universidade Duke e coautor da pesquisa, Drew Shindell, em entrevista reproduzida pelo jornal Washington Post.
A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade Fudan, na China, que analisaram como diferentes tipos de microplásticos interagem com a luz solar na atmosfera. O estudo também utilizou simulações climáticas para entender como essas partículas se dispersam.
Os pesquisadores indicam que partículas pretas, vermelhas, amarelas e azuis absorvem luz solar de forma muito mais intensa do que partículas brancas ou transparentes. De acordo com os resultados, partículas pigmentadas apresentaram níveis de absorção térmica quase 75 vezes superiores aos de plásticos sem pigmentação. No mês passado, ele foi levado ao hospital após aparentemente desmaiar em uma boate de Miami durante uma transmissão ao vivo.
Usinas de carvão?
Os autores estimam que os microplásticos suspensos na atmosfera possam contribuir para o aquecimento global em aproximadamente um sexto do impacto provocado pelo carbono negro, que é a fuligem gerada principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
Embora o efeito seja menor do que o produzido por veículos, indústrias ou pecuária, os pesquisadores afirmam que está longe de ser irrelevante. “Não é algo trivial”, afirmou Shindell.
Pelos cálculos apresentados, o efeito anual das emissões globais de microplásticos seria aproximadamente equivalente à operação de 200 usinas movidas a carvão durante um ano inteiro. O estudo ressalta ainda que o impacto pode ser cumulativo, já que essas partículas permanecem no ambiente por décadas antes de se degradarem completamente.
Partículas pouco compreendidas
Microplásticos são fragmentos menores que cinco milímetros, geralmente originados da decomposição de resíduos plásticos maiores. Já os nanoplásticos são ainda menores e podem ter espessura inferior à de um fio de cabelo humano.
Nas últimas décadas, pesquisas vêm relacionando essas partículas a impactos sobre ecossistemas, organismos marinhos e saúde humana. Mas a influência direta sobre o clima ainda é considerada algo relativamente recente.
Os próprios autores reconhecem que ainda existem grandes incertezas sobre o tamanho real desse efeito atmosférico.
“Nosso trabalho é apenas um primeiro passo”, declarou o professor da Universidade Fudan e coautor do estudo, Hongbo Fu, em entrevista ao Washington Post.
Conforme os pesquisadores, um dos maiores desafios é medir com precisão a quantidade de microplásticos presente na atmosfera e entender como formatos, cores e tamanhos diferentes interagem com a radiação solar.
Os cientistas afirmam que já existem evidências suficientes para justificar esforços internacionais de redução da poluição plástica — tanto pelos impactos ambientais quanto pelos riscos à saúde humana. “Eventualmente, os efeitos climáticos podem ser mais um motivo para isso”, disse o professor da Universidade de Viena e revisor da pesquisa, Andreas Stohl.
Fonte: Um só Planeta