Duas novas espécies de peixes das nuvens, endêmicas da Caatinga brasileira no Rio Grande do Norte, foram descritas por pesquisadores e já entram na lista de alto risco de extinção. Classificadas como Em Perigo (EN) e Criticamente Ameaçada (CR), elas habitam áreas da bacia do rio Piranhas-Açu pressionadas por empreendimentos eólicos e petrolíferos, atividades que, segundo o estudo, vêm alterando a qualidade da água e o próprio corpo dos peixes.
Em entrevista exclusiva ao ((o))eco, o biólogo Yuri Abrantes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, explica que a contaminação foi confirmada em laboratório. “Encontramos substâncias do petróleo na água onde esses peixes vivem, em níveis altos e preocupantes”, afirma.
Análises químicas identificaram contaminação por hidrocarbonetos de petróleo nos habitats dessas espécies. Em um dos pontos estudados, a localidade de uma delas está a menos de cinco metros de um poço em operação.
O impacto não se restringe ao ambiente: os pesquisadores registraram fenótipos atípicos, com indivíduos exibindo características simultâneas de machos e fêmeas, um sinal de possível interferência química no desenvolvimento biológico. “Hoje não existe um limite claro na lei para esse tipo de poluente na água doce, o que dificulta dizer oficialmente quando a contaminação é excessiva. Mas, comparando com outras substâncias parecidas, os valores que encontramos são muito acima do aceitável”, explica o pesquisador, em referência à Resolução 357/05, do Conselho Nacional do Meio Ambiente.
O estudo, que foi publicado esta semana na revista Neotropical Ichthyology, também levanta uma lacuna regulatória. A atual resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (357/2005), que trata da classificação de corpos d’água e limites de substâncias tóxicas, não enquadra adequadamente hidrocarbonetos de petróleo em ambientes de água doce. Na prática, isso dificulta o controle e a responsabilização por contaminações como as observadas na região.
Além da fragilidade normativa, o trabalho critica o sistema de licenciamento ambiental, apontando que espécies de água doce da Caatinga frequentemente são negligenciadas nas avaliações de impacto. O avanço da exploração energética desde a década de 1970 consolidou a região como polo estratégico, mas à custa de uma biodiversidade ainda pouco conhecida e já sob forte pressão. “Esses peixes vivem em áreas muito pequenas e específicas. Qualquer impacto, como a instalação de empreendimentos, pode afetar diretamente a sobrevivência deles”, diz Abrantes. “Em um dos casos, a espécie só existe em um ponto que fica a poucos metros de um poço de petróleo em atividade”, completa.
Os autores também relacionam o cenário às alterações das regras do licenciamento ambiental com a aprovação da nova Lei Geral do Licenciamento, que entrou em vigor em fevereiro deste ano, após o Congresso derrubar os vetos do presidente Lula à lei. Para os pesquisadores, o enfraquecimento dos mecanismos de controle pode agravar situações como a registrada na bacia potiguar, onde espécies recém-descobertas já enfrentam risco iminente de desaparecer. “A retirada da vegetação, a poluição da água e a perda das áreas alagadas prejudicam diretamente esses ambientes e os animais que vivem neles”, afirma o pesquisador.
Para o biólogo, o caso evidencia a urgência de integrar ciência e política pública. “Os peixes quase nunca são considerados nos estudos ambientais, principalmente em projetos de energia eólica. Isso precisa mudar”, critica. “Estamos descobrindo espécies que já estão ameaçadas. Isso mostra que podemos perder essa biodiversidade antes mesmo de conhecê-la direito”, conclui.
Fonte: O Eco