Uma onda gigantesca de 481 metros de altura, maior do que a Torre Eiffel, atingiu um fiorde no sudeste do Alasca (corredor estreito de mar cercado por montanhas), em agosto de 2025, e entrou para a história como o segundo maior megatsunami já registrado no planeta.
Agora, um novo estudo publicado na revista Science aponta que o episódio pode ser um retrato do avanço da crise climática no Ártico: o colapso de encostas desestabilizadas pelo derretimento acelerado de geleiras.
O evento aconteceu no Tracy Arm Fjord, uma região conhecida por paisagens glaciais e visitada diariamente por navios de cruzeiro turísticos. De acordo com os pesquisadores, o horário do desastre, às 5h26 da manhã, evitou uma tragédia humana.
“Sabemos que havia pessoas que quase estavam no lugar errado”, disse o geólogo Bretwood Higman. “Fico assustado ao pensar que talvez não tenhamos a mesma sorte no futuro”.
O pesquisador esteve no local semanas após o deslizamento e encontrou árvores arrancadas, encostas devastadas e marcas da força da água ao longo do fiorde. As declarações foram publicadas pela BBC News.
Segundo um estudo liderado pelo geomorfologista Dan Shugar, da Universidade de Calgary, cerca de 64 milhões de metros cúbicos de rocha despencaram de uma montanha próxima à geleira South Sawyer. O material caiu quase 1 km verticalmente até atingir a água em menos de um minuto, deslocando um enorme volume líquido e gerando a onda gigantesca.
Os cientistas afirmam que o recuo das geleiras ocasionou a tragédia. O pesquisador Stephen Hicks, da University College London, explicou que o gelo funcionava como uma espécie de suporte natural para a encosta. “A geleira ajudava a sustentar essa porção de rocha”, disse Hicks, conforme a BBC News. “Quando o gelo recuou, a base do paredão ficou exposta, permitindo que o material desabasse no fiorde”.
O que é um megatsunami?
Diferentemente dos tsunamis tradicionais, geralmente provocados por terremotos submarinos, os megatsunamis surgem a partir de deslizamentos de terra ou colapsos glaciais que atingem massas de água confinadas, como fiordes e lagos. Costumam produzir ondas muito altas, embora mais localizadas.
O maior megatsunami já registrado ocorreu em 1958, também no Alasca, na Baía de Lituya, quando a onda atingiu 524 metros de altura. O evento de Tracy Arm ficou logo atrás, com 481 metros.
Além da onda principal, o fenômeno no Alasca gerou uma seiche, oscilação contínua da água, que persistiu por 36 horas dentro do fiorde. Os pesquisadores também identificaram ondas sísmicas equivalentes a um terremoto de magnitude 5,4.
Turismo e risco
O episódio gerou preocupações sobre segurança em áreas glaciais que vêm registrando aumento do turismo marítimo. Segundo o estudo, o número anual de passageiros de cruzeiros no Alasca cresceu de 1 milhão em 2016 para 1,6 milhão em 2025. Horas após o deslizamento, embarcações turísticas com mais de 100 passageiros estavam programadas para entrar no fiorde. No dia anterior, dois grandes navios de cruzeiro haviam passado pelo local.
“Sinto que escapamos por pouco”, declarou Dennis Staley, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), em entrevista ao The Guardian.
Os autores do estudo alertam que a combinação entre derretimento acelerado de geleiras, degradação do permafrost e aumento da circulação humana em áreas remotas pode tornar eventos semelhantes mais frequentes nas próximas décadas.
“Com regiões de fiordes sendo cada vez mais visitadas por navios de cruzeiro, e as mudanças climáticas tornando eventos semelhantes mais prováveis, esse episódio evidencia o crescente risco de deslizamentos e tsunamis em ambientes costeiros”, escreveram os pesquisadores no artigo publicado na Science.
Alasca
O Alasca reúne condições particularmente vulneráveis: montanhas íngremes, fiordes estreitos, intensa atividade sísmica e rápido derretimento glacial.
Para Higman, o aumento desse tipo de evento já não parece uma hipótese distante. “Neste momento, estou bastante convencido de que esses eventos não estão aumentando apenas um pouco, mas muito”, afirmou. “Talvez estejam ocorrendo dez vezes mais do que algumas décadas atrás”.
Os pesquisadores defendem medidas urgentes de monitoramento de encostas instáveis, novos modelos de previsão de tsunamis e protocolos específicos para regiões turísticas no Ártico. Algumas companhias de cruzeiro já anunciaram que deixarão de operar em Tracy Arm por questões de segurança.
Fonte: Um só Planeta