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IMPACTOS

Estudo indica que plantas tropicais florescem meses mais cedo ou mais tarde devido à crise climática

As mudanças ameaçam os ecossistemas, pois a floração fica dessincronizada com os animais que se alimentam de frutos, dispersam sementes e atuam como polinizadores.

26 de fevereiro de 2026
Phoebe Weston
4 min. de leitura
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Foto: Nature Picture Library/Alamy

Flores tropicais estão florescendo meses mais cedo ou mais tarde do que costumavam devido ao colapso climático, com potenciais “impactos em cascata por todos os ecossistemas”, segundo um estudo com 8.000 plantas que remonta a 200 anos.

Pesquisadores analisaram flores de diversos países, incluindo Brasil, Equador, Gana e Tailândia, lar de alguns dos ecossistemas mais biodiversos da Terra, mas também dos mais subestudados.

A árvore amaranto brasileira floresce 80 dias mais tarde do que florescia na década de 1950, enquanto o arbusto rattlepod ganês teve seu período de floração antecipado em 17 dias entre as décadas de 1950 e 1990, de acordo com um estudo de espécimes de museu.

Anteriormente, acreditava-se que as regiões tropicais — onde as temperaturas variam menos ao longo do ano — não seriam tão afetadas pela crise climática em relação ao momento da floração. Essa hipótese se mostrou equivocada, afirmou a pesquisadora principal Skylar Graves, da Universidade do Colorado Boulder, acrescentando que “nenhum lugar na Terra está imune às mudanças climáticas”.

“Isso é um grande problema, porque não apenas os trópicos ocupam um terço do planeta, como também abrigam os ecossistemas mais biodiversos da Terra”, disse Graves. Quase 180 novas espécies de plantas para a ciência são encontradas nos trópicos a cada ano, segundo o artigo.

Os pesquisadores compilaram dados de museus sobre 33 espécies tropicais entre 1794 e 2024. Os períodos de floração mudaram, em média, dois dias por década, de acordo com Graves, que passou anos analisando coleções de flores secas.

É provável que todo o ecossistema tropical seja afetado negativamente. “Essas mudanças, e outras que se seguem, fragmentam comunidades e cadeias alimentares”, escreveram os pesquisadores no artigo publicado na revista Plos One, descrevendo as alterações como potencialmente causadoras de “impactos em cascata por ecossistemas inteiros”. Os trópicos são um “grande ponto cego na compreensão dos impactos globais das mudanças climáticas”, acrescentaram.

É provável que essas mudanças tenham efeitos mais amplos no ecossistema, já que a floração deixa de coincidir com os ciclos de animais que comem frutos e dispersam sementes (o que significa que pode não haver frutos disponíveis quando eles esperam encontrá-los), além de afetar outras plantas e polinizadores.

Se, por exemplo, uma flor precisa ser polinizada por uma ave migratória que só permanece na região por alguns dias ao ano e o período já não coincide, a flor não será polinizada e a ave não terá o néctar para se alimentar.

“Os ecossistemas são teias de interações muito delicadas, e se um elemento sai de sincronia — especialmente as plantas, que são a base do ecossistema — tudo pode se desestruturar em todos os níveis”, disse Graves. Muitos dos animais que dependem dessas plantas são primatas, que já são considerados em risco.

O estudo mostrou impactos semelhantes aos observados em plantas de regiões temperadas, boreais e de desertos alpinos. Diferentes espécies dependem de diferentes sinais para iniciar a floração — para algumas pode ser a temperatura mais alta do dia; para outras, a temperatura mais baixa da noite. “Se a mudança climática intensifica ou antecipa um sinal de floração, uma espécie pode florescer mais cedo. Se interrompe ou atrasa esse sinal, a floração pode ser adiada. É por isso que vemos tanto antecipações quanto atrasos, até mesmo dentro da mesma região”, explicou Graves.

Os ecossistemas tropicais são componentes da saúde planetária mais ampla, e mudanças nessas regiões podem provocar impactos em cascata em todo o globo. “Os trópicos correm tanto risco quanto a região temperada que você chama de lar e, por isso, é necessário o mesmo nível de esforço na conservação desses ecossistemas”, afirmou Graves.

A Dra. Emma Bush, do Jardim Botânico Real de Edimburgo, que não participou da pesquisa, disse: “A sazonalidade complexa dos ecossistemas tropicais foi subestudada e mal compreendida por tempo demais… Isso destaca o quanto ainda precisamos trabalhar para documentar e entender os ecossistemas tropicais e o impacto que as mudanças climáticas estão tendo sobre eles.”

Ela acrescentou: “Este estudo se soma ao crescente conjunto de evidências de que diferentes elementos dos ecossistemas podem estar respondendo às mudanças climáticas em ritmos distintos. Quando plantas, insetos e outros animais ficam fora de sincronia, todos podem sair perdendo — e o risco é que percamos biodiversidade que também beneficia as pessoas.”

Traduzido de The Guardian.

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