Em um século, as populações de chimpanzés sofreram uma queda dramática em toda a África. Antes estimados entre um e dois milhões de indivíduos distribuídos por 25 países, hoje esses grandes primatas somam cerca de 340 mil animais, segundo o Instituto Jane Goodall. Outras organizações de proteção apontam números ainda menores, entre 170 mil e 300 mil indivíduos vivendo em liberdade. Neste 14 de julho, Dia Mundial do Chimpanzé, a data é um alerta para a necessidade urgente de enfrentar as pressões humanas que colocam em risco a sobrevivência de um dos parentes vivos mais próximos da humanidade.
A comemoração marca o dia em que a primatóloga Jane Goodall chegou ao Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, em 1960. Poucos meses depois, ela realizaria uma das descobertas mais importantes da história da primatologia ao observar um chimpanzé fabricar e utilizar uma ferramenta para extrair cupins de um cupinzeiro. A constatação derrubou a antiga ideia de que apenas seres humanos eram capazes de produzir ferramentas e inaugurou uma nova compreensão sobre a inteligência, a cultura e a complexidade cognitiva dos chimpanzés.
Desde então, décadas de pesquisas revelaram que esses primatas compartilham aproximadamente 98,8% do DNA humano e apresentam sofisticadas capacidades sociais e emocionais. Demonstram empatia, estabelecem vínculos familiares duradouros, utilizam ferramentas que variam entre diferentes populações e transmitem conhecimentos entre gerações, características que reforçam sua elevada complexidade comportamental.
Apesar desse patrimônio biológico e evolutivo, os chimpanzés enfrentam uma combinação de ameaças que continua reduzindo suas populações.
Caça e tráfico continuam alimentando o declínio
Além do desmatamento, a caça para consumo de carne silvestre permanece entre as principais causas da redução das populações em diversas regiões da África. Em paralelo, filhotes continuam sendo retirados ilegalmente da natureza para abastecer o tráfico de animais silvestres.
A captura de um único filhote normalmente envolve a morte de outros membros do grupo que tentam protegê-lo, especialmente da mãe e de adultos aparentados. Como os chimpanzés vivem em sociedades altamente organizadas e possuem forte dependência materna durante vários anos, essas perdas comprometem não apenas indivíduos, mas a estrutura social de comunidades inteiras.
Outro fator crescente é a transmissão de doenças. Por compartilharem grande proximidade genética com os seres humanos, chimpanzés são particularmente vulneráveis a patógenos de origem humana, incluindo infecções respiratórias que podem provocar surtos fatais em populações selvagens.
Espécie permanece ameaçada de extinção
Todos os chimpanzés estão classificados como ameaçados de extinção. A situação é ainda mais crítica para o chimpanzé-ocidental (Pan troglodytes verus), listado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como criticamente ameaçado. Segundo a organização, essa subespécie perdeu aproximadamente 80% de sua população entre 1990 e 2014.
A baixa taxa reprodutiva agrava o cenário. As fêmeas têm poucos filhotes ao longo da vida, que permanecem sob cuidados maternos por vários anos. Isso significa que mesmo pequenas perdas populacionais podem levar décadas para serem compensadas.
Santuários oferecem uma segunda oportunidade
Para chimpanzés resgatados do tráfico e da exploração, os santuários representam, muitas vezes, a única alternativa de sobrevivência.
Instituições como o Santuário de Chimpanzés de Tacugama, em Serra Leoa, e o Santuário da Ilha de Ngamba, em Uganda, acolhem animais órfãos ou vítimas do comércio ilegal, oferecendo atendimento veterinário, alimentação adequada e ambientes que favorecem comportamentos naturais. Como os chimpanzés podem viver entre 50 e 60 anos, esses centros assumem um compromisso de cuidado que se estende por décadas.
Mais do que espaços de reabilitação, esses santuários mostram as consequências duradouras das atividades humanas sobre uma espécie cuja recuperação depende da proteção efetiva das florestas africanas, do combate ao tráfico de fauna, da fiscalização contra a caça ilegal e do fortalecimento de políticas internacionais de proteção.





