O cheiro de fumaça se espalhou pelo Porto de São Sebastião (SP) na noite de ontem (03/03), misturando-se ao odor já conhecido de fezes e urina acumuladas. Dentro do navio atracado, mais de 2.600 bois espremiam-se em compartimentos metálicos, confinados para uma viagem transatlântica rumo à Turquia. Por volta das 21h, as chamas começaram a subir justamente do local onde estavam armazenados feno e ração, material altamente inflamável que dividia espaço com os animais.
Enquanto o fogo avançava, cerca de 430 animais foram retirados às pressas. Outros permaneciam presos nos conveses, vulneráveis à fumaça, ao calor e ao pânico. O incêndio, controlado após a atuação do Corpo de Bombeiros com apoio das brigadas da Companhia Docas de São Sebastião (CDSS), do CEATE e dos planos de emergência do porto, mostrou mais uma vez os perigos da exportação de animais vivos.
De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), a ocorrência segue em fase de monitoramento e rescaldo. O Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) informou que o fogo teve início em um compartimento superior da embarcação. Rebocadores auxiliaram na operação, a área foi isolada e não houve registro de vazamento de produtos no mar.
O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de animais vivos, enviando-os para países como a Turquia sob a justificativa de atender a demandas específicas de matança. No entanto, as condições degradantes desses embarques são denunciadas há anos, com superlotação, acúmulo de dejetos, falta de ventilação adequada e sofrimento prolongado até o destino final, onde muitas vezes os métodos de matança também são alvo de críticas.
O transporte marítimo de animais submete milhares de indivíduos a semanas ou meses de confinamento, calor, estresse, desidratação e riscos sanitários. Incêndios, tempestades, panes mecânicas e surtos de doenças são riscos inerentes a uma atividade que prioriza lucro sobre a segurança.
O incêndio em São Sebastião é um sintoma de um modelo que insiste em tratar vidas como mercadorias em contêineres empilhados. Cada operação desse tipo carrega o risco de tragédias maiores, tanto para os animais, quanto para o meio ambiente.
A situação permanece sob monitoramento da CDSS, com apoio da Marinha do Brasil, Defesa Civil, SAMU e CETESB. O porto, que é administrado pelo Governo de São Paulo, afirma que os animais foram retirados do navio em segurança.
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