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SECA

Campos naturais e savanas ocupam metade do planeta e estão sob pressão crescente; entenda por que devemos nos preocupar

No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, ONU alerta para a degradação acelerada de um dos ecossistemas mais extensos e menos valorizados do planeta

17 de junho de 2026
Vanessa Oliveira
5 min. de leitura
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Foto: Ilustração | Pixabay

“Para proteger o nosso futuro, temos de proteger a terra”. Com esse alerta, o secretário-geral da ONU, António Guterres, marca o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, celebrado em 17 de junho. A frase resume uma preocupação crescente entre cientistas e formuladores de políticas públicas: a degradação de campos naturais, savanas e outras paisagens abertas que cobrem metade da superfície terrestre, sustentam cerca de dois bilhões de pessoas e desempenham papel decisivo na segurança alimentar, na conservação da biodiversidade e no equilíbrio climático.

Apesar de sua dimensão, esses ecossistemas permanecem entre os mais negligenciados do mundo. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), até metade dessas áreas já está degradada ou sob risco de degradação. Em algumas regiões, elas desaparecem mais rapidamente do que as florestas tropicais, comprometendo a produção de alimentos, a disponibilidade de água e os meios de vida de comunidades rurais.

O tema da campanha global de 2026 — “Reconhecer, respeitar e restaurar” — coloca essas paisagens no centro do debate internacional. A celebração deste ano será realizada no Quênia, país cuja economia e cultura mantêm forte ligação com sistemas pastoris. O evento também coincide com o Ano Internacional das Pastagens Naturais e dos Pastores, instituído pela ONU para dar visibilidade a ecossistemas que raramente recebem a mesma atenção dedicada às florestas.

Fenômeno silencioso

Quando se fala em desertificação, a imagem mais comum é a de dunas avançando sobre áreas agrícolas. Na prática, porém, o fenômeno é mais complexo. A desertificação corresponde à degradação das terras em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, causada por fatores como mudanças climáticas, desmatamento, manejo inadequado do solo, sobrepastoreio e uso insustentável da água. O resultado é a perda gradual da capacidade produtiva da terra.

No Brasil, o problema é particularmente visível no semiárido nordestino. Dados do Ministério do Meio Ambiente apontam que cerca de 13% do território nacional está suscetível à desertificação, abrangendo mais de 1.400 municípios e afetando milhões de pessoas. A região mais vulnerável é a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, onde secas mais intensas e frequentes se somam à degradação histórica dos solos.

Mas a discussão proposta pela ONU em 2026 vai além das áreas secas. O foco está nos chamados rangelands — termo que engloba campos naturais, savanas, áreas arbustivas e outras paisagens abertas distribuídas por todos os continentes. No Brasil, esses ambientes estão presentes principalmente no Cerrado, no Pampa e em partes da Caatinga. Eles armazenam carbono no solo, regulam ciclos hidrológicos, servem de habitat para inúmeras espécies e sustentam atividades econômicas e modos de vida tradicionais.

O alerta ganha força em um momento em que os impactos sobre a água se tornam cada vez mais evidentes. Dados recentes do MapBiomas mostram que, embora a Amazônia tenha recuperado parte da superfície coberta por água em 2025 após dois anos de secas extremas, o Brasil acumula uma tendência de redução dessas áreas ao longo das últimas quatro décadas. No Pantanal, a superfície de água permaneceu 56% abaixo da média histórica, evidenciando como mudanças climáticas e degradação ambiental vêm alterando o funcionamento natural dos ecossistemas.

“Até metade dos campos naturais e savanas do mundo está degradada ou em risco, enfraquecendo ciclos hidrológicos, a produtividade pecuária, a biodiversidade e os meios de subsistência rurais”, afirmou Barron Joseph Orr, cientista-chefe da UNCCD, durante reunião da convenção realizada no Panamá no fim de 2025.

A degradação dessas áreas ocorre justamente em um momento em que eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes. Campos naturais e savanas saudáveis funcionam como amortecedores naturais contra secas, ajudam a reter água no solo e reduzem a vulnerabilidade de comunidades rurais. Quando degradados, tornam-se menos capazes de desempenhar essas funções, ampliando os impactos econômicos e ambientais.

A ONU também busca chamar atenção para o papel de povos indígenas, comunidades tradicionais e pastores na conservação desses ecossistemas. Estima-se que mais de 500 milhões de pessoas dependam diretamente do pastoreio para sobreviver. Em muitas regiões, conhecimentos transmitidos por gerações ajudam a manter a produtividade da terra sem comprometer sua capacidade de regeneração.

Para a secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, a valorização desses grupos é parte essencial da solução. “Ao reconhecer seu valor, respeitar seus guardiões tradicionais e restaurar essas paisagens, podemos fortalecer os meios de vida de dois bilhões de pessoas”, afirmou.

Além dos benefícios ambientais, os argumentos econômicos para restaurar essas áreas também ganham força. Estudos apresentados pela UNCCD indicam que cada dólar investido na recuperação desses ecossistemas pode gerar até 35 dólares em retorno, considerando ganhos em produtividade, retenção de água, captura de carbono e redução dos custos associados à degradação.

O tema deve ganhar ainda mais força em agosto, quando a Mongólia sediará a COP17 da Convenção de Combate à Desertificação. A expectativa é que governos avancem em compromissos para restaurar terras degradadas e incorporar a gestão sustentável de campos naturais e savanas às estratégias globais de adaptação climática.

Enquanto a atenção internacional frequentemente se concentra nas florestas, a ONU lembra que outros ecossistemas também são decisivos para o futuro climático do planeta. A mensagem deste 17 de junho é um convite para olhar além das árvores e reconhecer o valor de paisagens abertas que sustentam pessoas, culturas e economias há milhares de anos, e cuja degradação pode ter consequências tão profundas e graves quanto o desmatamento.

Fonte: Um só Planeta

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