A presidência da COP30 acerta ao propor um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Mas há um ponto cego que precisa ser urgentemente corrigido: não basta olhar para a energia. É preciso olhar também para os produtos derivados do petróleo — especialmente os plásticos.
Foi com essa preocupação que organizações e cientistas brasileiros encaminharam cartas à presidência da COP30, alertando que uma transição real exige enfrentar o papel crescente da indústria petroquímica.
Hoje, mais de 90% dos plásticos são produzidos a partir de combustíveis fósseis. E, enquanto o mundo avança — ainda que lentamente — na substituição dessas fontes na matriz energética, a indústria do plástico segue em expansão acelerada. O consumo de petróleo para a produção petroquímica praticamente dobrou desde 2000, impulsionado sobretudo pelo aumento da produção de plásticos, que responde por cerca de 70% desse crescimento.
Esse não é um fenômeno periférico — é central para o futuro do clima. O setor petroquímico já responde por parcela significativa do consumo global de petróleo e pode chegar a 30% da demanda até 2050. Se essa trajetória se mantiver, corremos o risco de trocar uma dependência por outra: reduzimos o uso de fósseis na energia, mas ampliamos seu uso na produção de materiais descartáveis.
O impacto climático dessa dinâmica já é enorme. A produção de plásticos virgens emitiu cerca de 2,24 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2019 — quatro vezes mais do que toda a aviação global. E a maior parte dessas emissões ocorre antes mesmo do produto chegar ao consumidor, nas etapas de extração e produção de insumos petroquímicos.
Mas reduzir o problema dos plásticos a emissões seria um erro. Trata-se também de uma crise de saúde, biodiversidade e justiça ambiental. Milhões de toneladas de aditivos químicos são utilizados na produção de plásticos, muitos deles sem dados adequados sobre seus impactos, enquanto outros já são reconhecidos como nocivos. Ao final da cadeia, uma parcela relevante desses materiais ainda é incinerada, liberando substâncias tóxicas e cancerígenas.
E tudo isso ocorre com forte apoio público. Subsídios à produção de plásticos — diretos e indiretos — podem chegar a US$ 150 bilhões até 2050, perpetuando um modelo intensivo em carbono e bloqueando alternativas mais sustentáveis.
Diante desse quadro, não há transição climática consistente que ignore o papel dos plásticos. O roteiro da COP30 precisa enfrentar essa agenda de forma explícita — e com ambição compatível com a meta de 1,5 °C.
Isso implica medidas estruturais: limitar a produção de plásticos virgens, eliminar as substâncias perigosas, redesenhar materiais e produtos prevendo durabilidade e reuso, proibir a prática da obsolescência programada e fortalecer a responsabilidade estendida do produtor. Implica também evitar falsas soluções. A expansão de tecnologias como incineração e coprocessamento não resolve o problema — apenas desloca impactos e prolonga a dependência de materiais fósseis.
Como país anfitrião da COP30 – e considerando que a presidência brasileira do processo vai até o dia de abertura da COP31 – o Brasil tem uma responsabilidade adicional: liderar pelo exemplo. Isso significa alinhar sua atuação nas negociações internacionais — inclusive no tratado global de plásticos — com a urgência científica e climática. Também significa revisar posições que ainda resistem a medidas mais ambiciosas, como limites à produção de plásticos.
O mundo tem hoje uma oportunidade histórica de fechar essa lacuna entre clima e materiais. Ignorar o plástico é manter aberta uma das principais frentes de expansão dos combustíveis fósseis no século XXI.
Se quisermos uma transição justa, ordenada e efetiva, ela precisa enfrentar não apenas como geramos energia, mas também como produzimos, consumimos e descartamos materiais.
Sem isso, a transição será incompleta — e insuficiente diante da crise climática.
Fonte: ClimaInfo