A queda de 36% na perda de florestas tropicais primárias em 2025, puxada principalmente pelo Brasil, não é apenas uma boa notícia para a área verde. Também tem efeitos diretos sobre o oceano, especialmente, sobre ecossistemas costeiros que funcionam como verdadeiras “florestas marinhas” e são fundamentais para o equilíbrio climático global.
“A notícia de que o desmatamento de florestas tropicais caiu 42% em 2025 em relação ao ano anterior é uma excelente notícia para o oceano”, afirma a cientista Marinez Scherer, enviada especial para Oceano da Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas. “Estamos falando também de florestas costeiras, que estão próximas e ligadas aos mares e desempenham papel fundamental no combate ao aquecimento global”.
Florestas que começam na terra e terminam no mar
Embora o debate público sobre desmatamento ainda esteja concentrado na Amazônia e em outras florestas terrestres, há um conjunto de ecossistemas costeiros, como manguezais, marismas e pradarias marinhas, que operam como extensões desse sistema.
Essas áreas formam o que a ciência chama de “carbono azul”: ambientes altamente eficientes na captura e armazenamento de dióxido de carbono.
“Ecossistemas costeiros desempenham papel fundamental no sequestro e armazenamento de carbono”, explica Scherer. “São alguns dos sumidouros naturais mais eficientes do planeta, capazes de armazenar grandes quantidades por longos períodos”.
Além da função climática, esses ambientes atuam como infraestrutura natural. Manguezais e marismas reduzem o impacto de tempestades, contêm a erosão costeira e ajudam a amortecer a elevação do nível do mar, um dos efeitos mais críticos das mudanças climáticas.
Proteção climática e segurança alimentar
Esses ecossistemas também são essenciais para a biodiversidade e para a economia. Funcionam como berçários de espécies marinhas, sustentam cadeias produtivas ligadas à pesca e garantem segurança alimentar para milhões de pessoas, sobretudo, em regiões costeiras tropicais.
A inclusão desses ambientes em mecanismos financeiros internacionais começa a refletir esse peso estratégico. Iniciativas como o Tropical Forests Forever Facility já passaram a considerar manguezais dentro do contexto de proteção e financiamento climático.
Agenda integrada
Apesar dos avanços, ainda há uma desconexão entre desmatamento e oceano, refletida nas políticas públicas e nos compromissos climáticos globais. O próprio dado de 2025 mostra que, mesmo com a queda, a destruição florestal ainda está cerca de 70% acima do limite compatível com a meta de zerar o desmatamento até 2030.
Nesse contexto, integrar agendas se torna estratégico. “Atrelar a busca pelo desmatamento zero à proteção e restauração de ecossistemas costeiros é uma oportunidade que precisa ser ressaltada por governos, empresas e pela sociedade”, defende Scherer.
Fonte: Um só Planeta