Pesquisadores chineses desenvolveram um método para transformar a areia solta do deserto em uma espécie de “tapete” firme, capaz de resistir ao vento e reduzir a erosão. A técnica, baseada no uso de cianobactérias cultivadas em laboratório, foi testada em áreas áridas do noroeste da China e vem sendo apresentada como uma ferramenta adicional no combate à desertificação, sobretudo em regiões sujeitas a tempestades de areia intensas.
Como funciona a estabilização da areia do deserto com cianobactérias?
A técnica combina elementos simples: palha, areia e microrganismos. Primeiro, pesquisadores instalam uma malha de palha sobre a areia solta, criando pequenos quadrantes que reduzem a velocidade do vento ao nível do solo. Em seguida, aplicam suspensões de cianobactérias cultivadas em laboratório sobre essa estrutura. Em um período de cerca de 10 a 16 meses, forma-se uma película escura, conhecida como crosta biológica, que permanece aderida ao terreno mesmo após ciclos de calor intenso, geadas e tempestades de areia sazonais.
Essa crosta biológica não é apenas uma camada física. As cianobactérias utilizam a luz solar para produzir energia, capturam dióxido de carbono e liberam substâncias orgânicas simples no solo. Parte desses microrganismos também consegue fixar nitrogênio da atmosfera, convertendo-o em formas aproveitáveis por outras bactérias e, futuramente, por plantas. Ao longo de meses, o resultado é um solo menos pobre, com mais matéria orgânica acumulada na superfície e maior potencial para sustentar vegetação.
Por que as cianobactérias são tão importantes nesse processo?
A biotecnologia com cianobactérias no deserto se apoia em algumas características marcantes desses organismos. Além da fotossíntese e da fixação de nitrogênio em certas espécies, elas produzem açúcares pegajosos, chamados de polímeros extracelulares. Esses compostos funcionam como uma espécie de “cola” natural, unindo os grãos de areia em pequenos agregados. Com o tempo, esses agregados se interligam, formando um tecido que reduz o deslocamento das partículas pelo vento.
À medida que a crosta se desenvolve, a superfície passa a reter mais umidade após chuvas rápidas, algo muito relevante em climas áridos. Testes de campo indicam que áreas tratadas com cianobactérias mantêm a água por mais tempo do que regiões de areia exposta, onde a evaporação é quase imediata. Mesmo alguns dias extras de umidade podem ser decisivos para que gramíneas e pequenos arbustos criem raízes profundas o suficiente para sobreviver ao retorno das altas temperaturas.
Outro efeito observado é a concentração de nutrientes no topo do solo. Em vez de serem levados pelo vento, carbono, nitrogênio e fósforo tendem a se acumular na camada superficial, alimentados por células microbianas mortas e secreções biológicas. Essa combinação ajuda a formar um substrato mínimo para o início de um ecossistema mais complexo, abrindo caminho para musgos, líquens e, posteriormente, vegetação maior.
Confira as informações do canal “Earth.com” no YouTube, explicando sobre bactérias para estabilizar a areia do deserto:
Quais os resultados e desafios da recuperação de solos do deserto?
Em testes de laboratório e em áreas experimentais, a aplicação da crosta microbiana levou a uma redução de mais de 90% na perda de solo por erosão eólica. Isso significa menos areia em suspensão, menor desgaste da superfície e condições mais estáveis para projetos de reflorestamento em zonas de avanço do deserto. A técnica não elimina as causas da desertificação, como superpastejo, desmatamento ou manejo inadequado da água, mas oferece um recurso adicional para controlar o deslocamento de dunas e proteger áreas em recuperação.
O desenvolvimento dessa crosta, porém, exige cuidado prolongado. A superfície biológica é frágil nos primeiros anos e pode ser facilmente destruída por pisoteio, trânsito de veículos ou práticas agrícolas intensivas. Quando danificada, a recuperação pode levar anos, adiando a retomada da vegetação. Por isso, programas que utilizam cianobactérias em desertos costumam incluir zonas de exclusão, cercas ou sinalização para limitar o acesso humano e de animais enquanto a estrutura ainda está em formação.
Como essa estratégia pode ser aplicada em outras regiões áridas?
Especialistas em restauração de ecossistemas avaliam que a estabilização da areia com cianobactérias pode ser adaptada a diferentes tipos de deserto, desde que se respeitem as características locais de clima, composição da areia e disponibilidade de água. Em muitos casos, a aplicação da crosta biológica é planejada como uma etapa inicial, seguida por:
- plantio de gramíneas nativas resistentes à seca;
- introdução gradual de arbustos adaptados ao solo pobre;
- monitoramento da umidade e da matéria orgânica ao longo dos anos;
- ajustes nas práticas de pastoreio e uso da terra ao redor da área tratada.
Para fins de planejamento, alguns projetos consideram a seguinte sequência básica:
- Mapear áreas de areia móvel com maior risco de erosão.
- Instalar malhas de palha ou outro material adequado para reduzir a ação direta do vento.
- Aplicar suspensões de cianobactérias selecionadas para o clima local.
- Restringir o tráfego na área por meses, permitindo a formação da crosta biológica.
- Iniciar o plantio de espécies nativas quando o solo mostrar maior estabilidade e retenção de umidade.
Ao combinar microrganismos, manejo de solo e escolha de espécies adaptadas, a técnica oferece um caminho gradual para transformar superfícies de areia solta em ambientes mais estáveis. Em um cenário de expansão de áreas áridas em várias regiões do planeta até 2026, abordagens desse tipo vêm sendo analisadas como parte de estratégias mais amplas de contenção da desertificação e de proteção de comunidades que dependem diretamente da qualidade do solo.
Fonte: Revista Oeste