O Planetary Health Check 2025, relatório anual desenvolvido pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research com especialistas internacionais, confirmou que sete dos nove limites planetários já foram ultrapassados. A principal novidade desta atualização foi a entrada da acidificação dos oceanos na zona de risco pela primeira vez, ampliando o quadro de pressão sobre os sistemas que sustentam a estabilidade da Terra. Ao resumir o cenário, o diretor do instituto, Johan Rockström, afirmou que mais de três quartos dos sistemas de suporte do planeta já operam fora da zona segura.
Segundo o sumário executivo do relatório, apenas dois limites permanecem dentro do espaço operacional seguro: a depleção do ozônio estratosférico, hoje descrita como estável, e o aumento da carga de aerossóis atmosféricos, que apresenta tendência global de melhora. Para os outros sete, que incluem clima, biosfera, uso da terra, água doce, fluxos biogeoquímicos, novas entidades e agora a acidificação dos oceanos, a avaliação aponta tendências de agravamento contínuo, indicando deterioração adicional da saúde planetária no curto prazo.
Conceito de limites planetários define fronteiras críticas para estabilidade do sistema terrestre
O conceito de limites planetários foi proposto em 2009 por Johan Rockström e outros 27 cientistas em estudo publicado na revista Nature. A proposta redefiniu a forma como o impacto humano é analisado.
Em vez de focar exclusivamente em emissões de carbono, o modelo identifica nove processos biofísicos essenciais que mantêm a estabilidade do planeta. Esses processos incluem mudança climática, integridade da biosfera, uso da água doce, fluxos de nitrogênio e fósforo, acidificação dos oceanos, entre outros.
Para cada um deles, foram definidos limites quantitativos que representam margens de segurança. Ultrapassar esses limites não significa colapso imediato, mas indica aumento significativo do risco de mudanças irreversíveis no sistema terrestre.
Ultrapassagem simultânea de múltiplos limites planetários amplia risco de colapso sistêmico global
O relatório de 2025 destaca que o principal risco não está apenas em ultrapassar limites isoladamente, mas na combinação de múltiplas transgressões.
A interação entre esses sistemas pode gerar efeitos em cascata, nos quais a degradação de um processo intensifica a instabilidade de outros. Esse comportamento aumenta a probabilidade de pontos de inflexão, mudanças abruptas e irreversíveis que podem afetar o funcionamento global da biosfera.
O conceito está diretamente ligado à estabilidade do Holoceno, período de cerca de 10 mil anos em que o planeta manteve condições ideais para o desenvolvimento das civilizações humanas.
Mudança climática e concentração de CO₂ já ultrapassaram limites seguros definidos pela ciência
Entre os limites mais conhecidos está a mudança climática. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu cerca de 423 partes por milhão, nível não observado há aproximadamente 15 milhões de anos.
O limite considerado seguro foi definido em 350 ppm, valor ultrapassado há décadas. A continuidade do aumento reforça o cenário de aquecimento global e intensificação de eventos climáticos extremos.
A integridade da biosfera, que mede a saúde dos ecossistemas e da diversidade biológica, é considerada um dos limites centrais do sistema terrestre.
A taxa atual de extinção de espécies está entre 100 e 1.000 vezes acima do nível natural. O Relatório Planeta Vivo do WWF indica redução média de 68% nas populações de vertebrados silvestres entre 1970 e 2016.
Esse declínio compromete funções ecológicas essenciais, como polinização, regulação climática e manutenção dos ciclos naturais.
Uso excessivo de água doce e alteração de sistemas terrestres já comprometem equilíbrio hídrico global
O uso da água doce ultrapassou o limite seguro em 2023, com extração de rios, lagos e aquíferos acima da capacidade de reposição natural em diversas regiões.
Mais de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água em pelo menos um mês por ano, evidenciando a pressão sobre os recursos hídricos.
A alteração do sistema terrestre, especialmente por desmatamento, também compromete ciclos climáticos regionais e globais.
Fluxos de nitrogênio e fósforo representam o limite mais violado devido à agricultura intensiva
Os fluxos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo estão entre os limites mais gravemente ultrapassados. O uso intensivo de fertilizantes elevou os níveis de nitrogênio em mais de 200% acima do limite seguro, contaminando solos e corpos d’água e criando zonas mortas em regiões costeiras.
A introdução de entidades sintéticas inclui plásticos, pesticidas, compostos industriais e outras substâncias que não existiam naturalmente no ambiente.
A escala de produção e dispersão dessas substâncias ultrapassa a capacidade da biosfera de absorver e processar esses materiais, criando riscos ainda pouco compreendidos.
Acidificação dos oceanos entra na zona crítica e acelera mudanças químicas em ritmo histórico
A acidificação dos oceanos foi oficialmente incluída na lista de limites ultrapassados em 2025. Os oceanos absorvem cerca de 25% do dióxido de carbono emitido pela atividade humana. Esse processo reduz a concentração atmosférica de CO₂, mas altera diretamente a química da água.
Desde o início da era industrial, o pH médio da superfície oceânica caiu de 8,2 para 8,1. Apesar de parecer pequeno, esse valor representa aumento de até 40% na acidez da água devido à escala logarítmica.
Estudos paleoceanográficos indicam que a velocidade atual de acidificação é comparável apenas a eventos extremos como o Máximo Termal do Paleoceno-Eoceno, ocorrido há cerca de 56 milhões de anos.
Mesmo nesse episódio, a taxa de mudança foi significativamente mais lenta do que a observada atualmente. O registro geológico mostra que esse tipo de alteração pode levar à extinção em massa de organismos marinhos, especialmente aqueles que dependem de carbonato de cálcio.
Acidificação compromete recifes de coral e ameaça base da cadeia alimentar marinha global
A acidez crescente dificulta a formação de estruturas calcárias utilizadas por diversos organismos marinhos. Recifes de coral, responsáveis por sustentar grande parte da biodiversidade oceânica, estão entre os sistemas mais afetados.
Mais de 500 milhões de pessoas dependem diretamente desses ecossistemas para alimentação, proteção costeira e renda.
Além disso, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo têm no oceano sua principal fonte de proteína animal, tornando o impacto potencialmente global.
A acidificação reduz a capacidade dos oceanos de continuar absorvendo dióxido de carbono. Esse processo cria um ciclo de retroalimentação: quanto mais CO₂ é liberado, menor a capacidade de absorção, aumentando ainda mais a concentração atmosférica.
O aquecimento das águas superficiais intensifica esse efeito ao reduzir a mistura entre camadas oceânicas.
O relatório destaca que nem todos os sistemas seguem trajetória de degradação. A camada de ozônio apresenta sinais claros de recuperação, resultado do Protocolo de Montreal de 1987, que eliminou substâncias responsáveis por sua destruição.
A carga global de aerossóis atmosféricos também permanece dentro dos limites, embora com variações regionais.
Fonte: Click Petróleo e Gás