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AQUECIMENTO GLOBAL

Água mais quente no fundo do oceano ameaça derreter plataformas de gelo na Antártica por baixo, alerta estudo

Pesquisa detalha deslocamento de águas quentes e alerta sobre risco de aceleração do derretimento e da elevação do nível do mar

29 de abril de 2026
Nilson Cortinhas
3 min. de leitura
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Formações de gelo na Antártica em área monitorada por cientistas. Foto: Sebnem Coskun/Anadolu/Getty Images

O calor armazenado nas profundezas do oceano está se aproximando da Antártica e ameaça a estabilidade das plataformas de gelo do continente. A conclusão é de um estudo liderado pela Universidade de Cambridge, com dados de quatro décadas, que identificou o avanço de uma massa de água quente em direção à plataforma continental antártica. O jornal Communications Earth & Environment detalhou todos os dados. O movimento pode acelerar o derretimento do gelo por baixo dos blocos.

De acordo com a pesquisa, a chamada água profunda circumpolar se expandiu e migrou em direção ao continente ao longo dos últimos 20 anos. É a primeira vez que cientistas conseguem observar esse deslocamento diretamente nos dados, e não apenas em projeções climáticas.

“Isso é preocupante porque essa água quente pode fluir sob as plataformas de gelo da Antártica, derretendo-as por baixo e desestabilizando-as”, afirmou o autor principal do estudo, Joshua Lanham, que integra o Departamento de Ciências da Terra de Cambridge.

Impacto global

As plataformas de gelo funcionam como barreiras naturais que seguram o avanço das geleiras continentais. Juntas, essas massas de gelo armazenam água suficiente para elevar o nível do mar em cerca de 58 metros. Até agora, o principal desafio dos cientistas era a falta de dados contínuos. As medições oceânicas no entorno da Antártica eram feitas por navios em intervalos de até uma década, o que dificultava identificar tendências de longo prazo.

Para superar essa lacuna, os pesquisadores combinaram registros históricos com dados de boias autônomas, conhecidas como Argo, e aplicaram técnicas de machine learning (aprendizado de máquina). O resultado foi a construção de um novo conjunto de dados com registros mensais detalhados ao longo dos últimos 40 anos. Esse avanço permitiu identificar com precisão o deslocamento das águas quentes em direção à Antártica, um processo que, até então, só aparecia em modelos climáticos.

“É algo que havia sido previsto por modelos devido ao aquecimento global, mas que ainda não havíamos visto nos dados”, disse Lanham.

Oceano mais quente

O estudo reforça a conexão dos oceanos na crise climática. Mais de 90% do calor excedente gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos mares, e o Oceano Austral concentra a maior parte desse armazenamento. Dessa forma, a dinâmica de circulação está mudando. No passado, as camadas de gelo eram protegidas por águas frias que funcionavam como uma espécie de isolamento térmico. Esse padrão começa a se alterar.

“No passado, as camadas de gelo eram protegidas por um banho de água fria, impedindo seu derretimento. Agora, parece que a circulação do oceano mudou, e é quase como se alguém tivesse aberto a torneira de água quente”, explicou a professora Sarah Purkey, do Scripps Institution of Oceanography, uma das autoras do estudo.

Efeito em cadeia

O Oceano Austral é um dos principais reguladores do clima global, responsável por redistribuir calor, carbono e nutrientes por meio de correntes profundas. “Mudanças na distribuição de calor nessa região têm implicações mais amplas para o sistema climático global”, afirmou o professor Ali Mashayek, também autor do estudo.

Um dos pontos de atenção é a possível alteração na formação de águas frias e densas nos polos, que alimentam a chamada “esteira transportadora” global — sistema de correntes que inclui a Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), essencial para o equilíbrio climático.

Projeções

A mudança observada segue exatamente o padrão previsto por modelos: com menos água fria sendo formada, a água quente das profundezas avança para ocupar esse espaço, aproximando-se da Antártica. “Agora podemos ver que esse cenário já está emergindo nas observações. Não se trata apenas de um possível futuro, é algo que está acontecendo agora”, afirmou Lanham.

Fonte: Um só Planeta

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