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PROTEÇÃO

Pesquisadores criam IA capaz de antecipar risco de extinção de mais de 10 mil espécies de peixes

Ferramenta desenvolvida na Universidade do Maine analisa dezenas de variáveis ambientais e sociais para antecipar ameaças e orientar estratégias de conservação

1 de março de 2026
3 min. de leitura
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Imagem ilustrativa — Foto: Pexels

E se fosse possível prever quando uma espécie está prestes a desaparecer antes que seja tarde demais? Um modelo de inteligência artificial desenvolvido por cientistas da Universidade do Maine, nos Estados Unidos, promete fazer exatamente isso. A ferramenta, apresentada na revista Nature Communications na segunda-feira (16), permite estimar o risco de extinção de mais de 10 mil espécies de peixes de água doce em todo o mundo.

Criado ao longo de cinco anos, o sistema analisa 52 variáveis diferentes para identificar ameaças e indicar quando gestores ambientais podem agir. A proposta é mudar a forma como programas de conservação são planejados, permitindo intervenções antes que as populações entrem em colapso.

Atualmente, quase um terço das espécies de peixes de água doce enfrenta algum nível de ameaça de extinção, um cenário que pode afetar cadeias alimentares, o equilíbrio de ecossistemas e até atividades recreativas associadas a esses animais. Apesar disso, a professora assistente Christina Murphy, vice-diretora da Unidade Cooperativa de Pesquisa de Peixes e Vida Selvagem do Maine do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), afirma que muitas espécies ainda podem ser protegidas se as medidas forem adotadas cedo. Entre os exemplos citados está a truta-alpina do Maine (Salvelinus alpinus).

Segundo Murphy, a chave é agir antes que o risco se torne irreversível. Com a nova ferramenta, pesquisadores pretendem tornar a conservação mais preventiva, identificando espécies vulneráveis mesmo antes de serem oficialmente classificadas como ameaçadas.

Como o modelo prevê as ameaças

O sistema foi construído a partir da integração de 12 bases públicas de dados, principalmente da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Usando inteligência artificial, o modelo analisa milhões de relações entre espécies e ambiente para apontar quais estão em risco imediato e quais fatores estão por trás disso.

Entre os elementos avaliados estão construção de barragens, retirada de água de rios, degradação de habitat, poluição, condições econômicas e presença de espécies invasoras. Ao reunir essas informações, a ferramenta acelera e amplia o processo tradicional de identificação de espécies ameaçadas.

Coautor do estudo, o pesquisador J. Andrés Olivos, da Universidade Estadual do Oregon, comparou o processo à medicina. Segundo ele, os sinais de equilíbrio nos ecossistemas costumam ser mais consistentes do que as diversas combinações de fatores que levam à extinção. Para os peixes de água doce, disse, ambientes seguros tendem a ser previsíveis, enquanto o risco surge de múltiplas pressões ao mesmo tempo.

Os resultados foram comparados com avaliações já existentes sobre espécies ameaçadas, o que permitiu validar o modelo e verificar se as mesmas ameaças também atingem espécies ainda fora das listas de risco.

Impacto no planejamento ambiental

De acordo com Murphy, o método também ajuda a identificar quais estratégias de conservação têm funcionado. Em entrevista à Nature Communications, ela afirmou que fatores socioeconômicos exercem grande influência no sucesso das políticas ambientais e que o modelo pode orientar novas ações com base em experiências anteriores.

Ao analisar padrões ecológicos, ambientais e econômicos, a ferramenta sugere medidas capazes de beneficiar várias espécies simultaneamente. Com isso, gestores podem direcionar recursos antes que a situação se torne crítica.

Para o professor Ivan Arismendi, da Universidade Estadual do Oregon, muitas decisões de proteção ainda acontecem tarde demais. O modelo, afirma, permite que autoridades ajam com antecedência e priorizem esforços enquanto as populações ainda têm chance de recuperação.

A pesquisa começou em 2020, quando Murphy iniciou um pós-doutorado na Universidade Estadual do Oregon e passou a trabalhar com Arismendi e Olivos. O projeto contou ainda com a colaboração de cientistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, do Serviço Florestal americano e da Universidade de Girona, na Espanha.

Os pesquisadores agora esperam adaptar o sistema para outros grupos da biodiversidade, como aves, árvores e diferentes espécies de plantas e animais. A ideia é ampliar o uso da inteligência artificial para antecipar ameaças e orientar políticas de proteção em escala global.

Fonte: O Globo

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