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COMPORTAMENTO

Orcas quebram lemes de barcos provavelmente como consequência das cicatrizes deixadas pela ação humana nos mares

A conduta tem sido observada principalmente em uma população de orcas ibéricas criticamente ameaçada, com menos de 50 indivíduos estimados.

17 de junho de 2026
Redação ANDA
3 min. de leitura
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Foto: Getty Images

Desde 2020, um grupo de orcas vem protagonizando encontros incomuns com veleiros e iates nas águas de Espanha e Portugal, quebrando lemes, deixando embarcações à deriva e, em alguns casos, contribuindo para naufrágios. O fenômeno intriga cientistas, mas também mostra a inteligência delas em relação a crescente pressão que as atividades humanas exercem sobre os animais marinhos.

As interações, registradas principalmente nas proximidades do Estreito de Gibraltar, envolvem um pequeno grupo de orcas ibéricas, uma população criticamente reduzida, com menos de 50 indivíduos estimados. Elas se aproximam de veleiros e concentram sua atenção nos lemes, empurrando-os repetidamente com o focinho até que se rompam.

De acordo com pesquisadores que acompanham as orcas, os casos não são um ataque aos humanos. Para eles, não há evidências de agressividade direcionada às pessoas, o comportamento parece estar ligado a fatores muito mais complexos do que simples hostilidade.

Segundo Alfredo López Fernández, pesquisador do Grupo de Trabalho de Orcas Atlânticas (GTOA), o fenômeno não tem precedentes conhecidos. Ainda assim, ele alerta para o risco de atribuir intenções humanas aos animais.

As observações indicam que, após danificarem o leme, as orcas normalmente se afastam sem demonstrar interesse no restante da embarcação ou em seus ocupantes. Em muitos casos, o contato termina assim que o objeto deixa de funcionar.

Imagens registradas por equipes de estudo mostram que os cetáceos empurram os lemes com o focinho, utilizando a força do próprio corpo. Renaud de Stephanis, que monitora o grupo há décadas, compara a situação a uma brincadeira, mas, nesse caso, realizada por animais extremamente inteligentes e poderosos.

A hipótese de que as orcas estejam desenvolvendo um comportamento lúdico ganhou força porque a prática parece ter se espalhado socialmente. Como vivem em grupos familiares altamente organizados e possuem culturas próprias, elas conseguem transmitir hábitos entre indivíduos e gerações.

O número de ocorrências aumentou rapidamente nos últimos anos. O comportamento também se expandiu geograficamente, acompanhando as rotas migratórias das orcas.

Pesquisadores identificaram inicialmente três indivíduos centrais nesse processo, White Gladis, uma fêmea adulta, e duas jovens chamadas Black Gladis e Grey Gladis. Com o passar do tempo, outras orcas passaram a reproduzir a mesma conduta.

Mas nem todos os cientistas acreditam que a explicação esteja apenas na curiosidade ou na diversão.

Uma segunda hipótese sugere que o comportamento possa ter origem em experiências traumáticas causadas por atividades humanas. Segundo López, há registros de orcas feridas ou presas em linhas de pesca na região, além de indícios de lesões provocadas por embarcações.

White Gladis, apontada como possível iniciadora das interações, pode ter sofrido algum caso desse tipo. Já outras integrantes do grupo apresentam ferimentos compatíveis com contatos negativos envolvendo equipamentos pesqueiros.

Caso essa teoria esteja correta, as orcas poderiam estar tentando impedir a movimentação de barcos após associarem essas embarcações a situações de dor ou perigo.

Embora ainda não exista consenso científico sobre a motivação exata, os pesquisadores concordam que o comportamento provavelmente reflete a extraordinária capacidade cognitiva da espécie.

A neurocientista Lori Marino, especialista em cetáceos, destaca que as orcas são culturais e capazes de criar tradições, desenvolver estratégias coletivas complexas e transmitir conhecimentos dentro de seus grupos sociais. Comportamentos que começam como modismos podem se transformar em costumes duradouros.

Enquanto marinheiros buscam formas de evitar novos encontros, especialistas recomendam que embarcações monitorem áreas onde as orcas foram avistadas e mantenham distância dos grupos. Tentativas de assustar ou agredir os animais não apenas são ineficazes, como representam ameaça a uma população já vulnerável.

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