A previsão do tempo informa aos humanos o que está por vir há mais de um século. A vida selvagem não tinha um equivalente – até agora.
Cientistas desenvolveram o primeiro sistema global de alerta precoce capaz de prever quando e onde as espécies animais serão expostas a um calor sem precedentes, com até nove meses de antecedência.
O sistema identificou mais de 3.500 espécies em risco devido a temperaturas recordes em um único período de nove meses, sendo que mais de 1.000 já constam na lista de espécies ameaçadas de extinção.
O estudo foi liderado por Josep M. Serra-Diaz, pesquisador do Instituto Botânico de Barcelona, juntamente com uma equipe internacional abrangendo instituições de diversos países.
O projeto utilizou o sistema de previsão sub-sazonal a sazonal GEOS-S2S da NASA. Trata-se do mesmo tipo de ferramenta operacional de previsão climática usada para o planejamento meteorológico de longo prazo.
Em seguida, os pesquisadores cruzaram essas previsões com históricos de temperatura de longo prazo para mais de 30.000 espécies de mamíferos, aves, répteis e anfíbios.
O calor atinge antes da ação
A conservação sempre operou em um ciclo lento. Levantamentos, avaliações, rodadas de financiamento e planejamento – a engrenagem funciona em uma escala de tempo que fazia sentido quando as ameaças também evoluíam lentamente.
As ondas de calor extremas não. Elas chegam rapidamente, atingem o pico de intensidade e deixam um rastro de destruição antes que a maioria das instituições tenha concluído as discussões sobre como reagir.
“Ondas de calor extremas estão ocorrendo mais rapidamente do que os ciclos de conservação tradicionais conseguem responder”, disse Serra-Diaz.
“Nosso sistema de alerta precoce oferece os meses de antecedência necessários para que agências e comunidades locais se preparem para os impactos e ajam antes que as crises se instalem.”
A lacuna que o estudo aborda é de ordem prática. Prever em setembro que uma onda de calor atingirá o pico em janeiro é muito diferente de descobrir isso quando ela já está acontecendo.
O primeiro cenário permite alguma margem de ação. O segundo, não.
Vida selvagem na zona de perigo
A equipe realizou previsões abrangendo o período de maio de 2024 a fevereiro de 2025 e identificou mais de 3.500 espécies que, segundo as previsões, deverão sofrer com temperaturas acima de qualquer nível já registrado em suas áreas de distribuição conhecidas.
Destas, mais de 1.250 já haviam sido classificadas como vulneráveis, em perigo ou criticamente em perigo.
Para esses animais, um evento de calor sem precedentes não é apenas um fator de estresse incomum – é um potencial evento de extinção.
As previsões não foram distribuídas uniformemente. Várias regiões se destacaram como particularmente intensas.
O México, especialmente a Península de Yucatán e Tabasco, apresentou algumas das exposições previstas mais severas, e essa previsão se confirmou na realidade.
Durante o mesmo período, foram relatados casos de mortalidade por insolação em macacos-uivadores na mesma área.
Calor além dos limites fisiológicos
Padrões semelhantes apareceram em toda a África Subsaariana, incluindo a Bacia do Congo, e ao longo do Himalaia.
Nessas regiões, as temperaturas em 2024 se aproximaram ou ultrapassaram os limites fisiológicos conhecidos de muitas espécies locais.
Relatos da Índia, Paquistão e Austrália Ocidental descreveram a morte de pássaros, morcegos e outros animais selvagens em ondas de calor que corresponderam de perto ao que o modelo havia previsto.
O alinhamento entre a previsão e a mortalidade documentada foi, segundo os pesquisadores, impressionante.
Transformando previsões em ação
O sistema não apenas prevê onde o estresse térmico é provável, como também estima quanto tempo a exposição irá durar e com quanta antecedência um alerta pode chegar.
Em muitas das regiões afetadas, o modelo gerou alertas entre três e cinco meses antes da ocorrência do pior período de calor.
Esse tempo é suficiente para instalar postos de água de emergência, erguer estruturas de sombra, estabelecer programas de monitoramento ou começar a planejar a transferência das populações mais vulneráveis.
Nenhuma dessas opções existe quando o aviso surge depois do fato já ter ocorrido.
A estrutura também gera uma priorização hierárquica das regiões onde a intervenção é mais urgentemente necessária.
Isso é importante porque os recursos para a conservação são finitos e as decisões sobre onde concentrá-los raramente são fáceis.
Ter uma base estruturada e orientada por dados para essas decisões já é, por si só, um avanço.
Previsão dos meses de calor com antecedência
A ambição mais profunda por trás deste trabalho é uma mudança na forma como a conservação opera enquanto disciplina.
“Tradicionalmente, a conservação tem sido reativa, respondendo após uma crise já ter causado danos. Com a capacidade de antecipar ondas de calor extremas com meses de antecedência, podemos mudar para uma proteção proativa da biodiversidade”, disse Serra-Diaz.
Essa mudança é mais fácil de descrever do que de concretizar. Ela exige instituições dispostas a agir com base em previsões, em vez de esperar por perdas confirmadas.
Isso também exige financiamento que possa ser liberado rapidamente e a integração de sistemas de alerta precoce nos ciclos de planejamento das agências que precisam deles.
O estudo demonstra que a capacidade de previsão já existe.
As ferramentas não são hipotéticas. Elas detectaram eventos de calor que posteriormente ocorreram nos locais e períodos previstos pelo modelo, com vítimas documentadas.
A questão agora é se a comunidade de conservação conseguirá se reorganizar em torno desse tipo de previsão – tratando um aviso de nove meses não como um dado interessante, mas como um chamado à ação.
O estudo foi publicado na revista Nature Climate Change.
Traduzido de Earth.com.