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CONSCIENTIZAÇÃO

Cidades da Amazônia se unem para defender a inclusão dos sistemas alimentares nas negociações climáticas e promover dietas mais sustentáveis

Primeiro cluster municipal do Plant Based Treaty no mundo foi criado no Pará e pressiona negociações internacionais a tratarem o peso da pecuária e dos sistemas alimentares na crise climática

10 de junho de 2026
Nilson Cortinhas
5 min. de leitura
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Foto: Getty Images

Na esteira da COP30, realizada em Belém, no Pará, em 2025, quatro cidades amazônicas passaram a defender que alimentação, pecuária e sistemas alimentares deixem de ser um tema periférico nas negociações climáticas globais e entrem definitivamente no centro do debate internacional.

A capital paraense, além das cidades Ananindeua, Abaetetuba e Oeiras do Pará formaram o primeiro cluster municipal do Plant Based Treaty no mundo. A iniciativa global inspirada no Acordo de Paris propõe a transição para sistemas alimentares de base vegetal como estratégia de enfrentamento da crise climática.

A articulação ocorre em um momento simbólico para o Brasil. Ao mesmo tempo em que o país busca consolidar protagonismo internacional nas negociações climáticas após a COP30, continua sendo o maior exportador de carne bovina do planeta e dono do segundo maior rebanho bovino do mundo, com 238 milhões de cabeças, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O movimento liderado pelas cidades amazônicas tenta justamente tensionar essa contradição: como o Brasil pretende liderar a agenda climática global sem discutir o impacto dos sistemas alimentares e da pecuária sobre as emissões?

“O cluster na Amazônia vem fortalecer muito o tratado. Uma das cidades, Oeiras do Pará, fica bem no interior da floresta e não possui nem corpo de bombeiros. A comunidade se junta para lutar contra as queimadas. É um claro sinal de que a emergência climática já é real e afeta as camadas mais vulneráveis da população”, informou o diretor nacional de expansão municipal do Plant Based Treaty Brasil, Leandro Franz, em entrevista exclusiva ao Um Só Planeta.

Leandro considera que o objetivo é ampliar a pressão para que a relação oriunda da alimentação e clima passem a integrar oficialmente as decisões das COPs. “No cluster formado no Pará, são prefeitos amazônicos liderando uma agenda que o mundo ainda evita nomear diretamente”, disse.

Hoje, mais de 70 cidades no mundo aderiram ao tratado, incluindo Los Angeles, Amsterdã, Edimburgo e Belfast. O Brasil já soma sete cidades signatárias em quatro estados, Pará, Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo, além de mais de 100 cafés e restaurantes endossados, duas marcas signatárias e atuação junto a assembleias legislativas estaduais. A meta da organização é chegar a 20 municípios brasileiros antes da COP31, que será realizada na Turquia.

“Chegando a 20 municípios, o país ultrapassará qualquer outro em desenvolvimento na iniciativa global”, afirma o movimento, em comunicado divulgado recentemente.

A alimentação e da crise climática

Os sistemas alimentares vêm sendo apontados cada vez mais por pesquisadores e organizações climáticas como peça-chave para conter o aquecimento global.

Segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), citados pelo movimento, a pecuária brasileira responde por 51% das emissões totais do país quando consideradas emissões diretas e indiretas, incluindo desmatamento, uso de energia e fermentação entérica – processo digestivo natural de animais, como bois, vacas, búfalos, cabras e ovelhas, que produz grandes quantidades de metano (CH₄), um dos principais gases de efeito estufa.

O documento também aponta que o agronegócio, somado ao desmatamento associado, representa cerca de 74% das emissões brutas brasileiras. Outro dado usado pelo Plant Based Treaty chama atenção para o tamanho do impacto climático do rebanho bovino brasileiro: se fosse um país, seria o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta.

A organização também sustenta que a pecuária está ligada a cerca de 80% do desmatamento da Amazônia, com base em dados do WWF. Apesar do peso das emissões, sistemas alimentares ainda aparecem de forma limitada nos documentos oficiais das negociações climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU).

“A complexidade é política, da mesma maneira que vemos nas discussões sobre transição energética. Grande parte do PIB de muitos países depende da pecuária”, avaliou Franz. “O problema é que mesmo a pecuária vai sofrer e está sofrendo com a crise climática e precisamos diversificar para sermos mais resilientes na produção de alimentos”, acrescentou.

O que muda nas cidades?

Embora tenha forte componente simbólico, a adesão ao tratado também prevê ações concretas nos municípios. É o que argumentou Franz. Ele pondera que cada cidade elabora compromissos próprios a partir de um conjunto de cerca de 40 medidas sugeridas pela iniciativa global.

“O primeiro bloco é mais simbólico: apenas por assinar o tratado, a cidade reconhece a gravidade do impacto dos sistemas alimentares na crise climática”, explicou. Já a segunda etapa envolve medidas práticas. “Temos cidades trabalhando com ações educativas, conexão com produtores de agricultura familiar e projetos de conservação da biodiversidade”, afirmou.

Entre as prioridades defendidas pelo grupo estão mudanças graduais em compras públicas de alimentos, incentivo a pratos de base vegetal em escolas e restaurantes populares, além de revisão de cardápios institucionais. “Sempre pedimos prioridade para pratos sustentáveis nas escolas e restaurantes”, disse Franz.

O movimento também tenta aproximar universidades da pauta. A Universidade Federal de Jataí, em Goiás, foi a primeira universidade federal brasileira a aderir ao tratado, com compromisso de revisar o restaurante universitário e promover seminários sobre sistemas alimentares.

Pressão sobre as COPs

A delegação brasileira do Plant Based Treaty pretende levar o caso do cluster amazônico para a conferência climática intermediária da ONU, a Bonn SB64, na Alemanha, em junho. O objetivo é pressionar negociadores internacionais a incluírem linguagem específica sobre alimentação e sistemas alimentares nas decisões oficiais da convenção climática.

“Levaremos tanto para Bonn quanto para Istambul essa força de pressão de baixo para cima”, afirmou Franz.

O tratado já reúne mais de 260 mil apoiadores, quatro mil organizações e nomes de peso da ciência e da cultura internacional, como Paul McCartney, Jane Goodall e o climatologista brasileiro Carlos Nobre. A iniciativa, porém, ainda enfrenta resistências políticas e econômicas em um dos países mais ligados ao agronegócio no mundo.

Para Franz, o debate precisa deixar de ser tratado como oposição direta à pecuária e avançar para uma discussão sobre transição e diversificação alimentar. “O tratado não propõe acabar com a pecuária amanhã”, considerou. “Os três pilares são parar a expansão, redirecionar subsídios públicos para sistemas plant-based e restaurar ecossistemas degradados”, explicou.

“A própria pecuária não fala mais em expansão no Brasil, porque expandir significa derrubar mais florestas. O tema na pecuária tem sido produtividade e reflorestamento”, concluiu.

Fonte: Um só Planeta

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