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IMPACTOS

Neblina abriga microrganismos que ajudam a limpar a atmosfera, diz estudo

Pesquisadores identificam comunidades bacterianas ativas em gotículas suspensas no ar e mostram que elas degradam poluentes tóxicos.

9 de junho de 2026
Arthur Almeida
6 min. de leitura
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Foto: Thi Thuong Thuong Cao

Por muito tempo, a neblina foi vista apenas como um fenômeno atmosférico passageiro: uma nuvem rente ao solo formada por minúsculas gotículas de água suspensas no ar. Mas uma nova pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, sugere que ela pode ser muito mais do que isso.

Segundo um pré-print disponibilizado no dia 11 de maio na plataforma mBio, a neblina funciona como um habitat temporário para comunidades bacterianas vivas, capazes de crescer, se reproduzir e até ajudar a remover poluentes da atmosfera. Tal descoberta desafia a premissa de que os microrganismos ficam inativos enquanto são transportados pelo vento.

“Observamos as bactérias ao microscópio e constatamos que, sim, elas estão aumentando de tamanho e se dividindo, ou seja, estão crescendo”, afirma Thi Thuong Thuong Cao, autora principal do estudo, em comunicado. “Também descobrimos que elas estão usando o formaldeído como alimento para sustentar seu crescimento.”

A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos e analisou 32 episódios de neblina de radiação na região central da Pensilvânia. Diferentemente de outros tipos de neblina ou de nuvens transportadas por correntes atmosféricas, a neblina de radiação se forma em massas de ar relativamente estagnadas, permitindo que os cientistas acompanhem com maior precisão as transformações microbiológicas antes, durante e depois de sua formação.

Oceano microscópico suspenso no ar

Os resultados revelaram concentrações bacterianas surpreendentemente elevadas. Embora menos de 1% das gotículas de neblina contenham bactérias, a enorme quantidade de gotículas presentes no fenômeno faz com que a densidade total de microrganismos seja comparável à encontrada em ambientes aquáticos naturais.

“Quando você junta todas as gotículas, a concentração de bactérias é a mesma que no oceano”, compara Ferran Garcia-Pichel, coautor do trabalho. Os pesquisadores estimaram concentrações próximas de um milhão de cópias do gene 16S rRNA por mililitro de água de neblina, valores comparáveis aos encontrados em lagos eutróficos e ambientes marinhos.

O estudo também identificou uma comunidade microbiana distinta daquela presente no ar seco antes e depois dos eventos de neblina, indicando que as gotículas constituem um ambiente próprio, com dinâmica biológica específica. A predominância de bactérias do gênero Methylobacterium sp. chamou a atenção da equipe. Esses microrganismos representaram, em média, cerca de 29% das sequências genéticas identificadas nas amostras analisadas.

Bactérias que “comem” poluentes

O protagonismo das Methylobacterium sp. não se limita à abundância. Essas bactérias são especialistas em metabolizar compostos orgânicos simples contendo apenas um átomo de carbono, conhecidos como compostos C1. Entre eles está o formaldeído, um poluente atmosférico associado à formação de smog fotoquímico e a efeitos nocivos à saúde humana.

Os experimentos mostraram que as comunidades bacterianas presentes na neblina removem formaldeído em taxas excepcionalmente elevadas. Segundo os autores, a degradação observada foi cerca de 200 vezes mais rápida do que a registrada anteriormente em estudos realizados com água de nuvens.

Inicialmente, os cientistas imaginaram que o composto estivesse sendo utilizado principalmente como fonte de carbono para crescimento. No entanto, a velocidade da degradação revelou outro mecanismo. “Em níveis elevados, a substância química é tóxica para as bactérias, então elas a decompõem em dióxido de carbono para manter os níveis baixos”, aponta Cao.

A conclusão foi reforçada pelos testes em laboratório com cepas isoladas diretamente da neblina. Os pesquisadores demonstraram que essas bactérias possuem genes especializados na assimilação e degradação do formaldeído e conseguem sobreviver melhor em ambientes onde esse composto está presente graças à sua capacidade de eliminá-lo rapidamente.

Evidências de crescimento no céu

Uma das principais questões investigadas pela equipe era se os microrganismos estavam efetivamente ativos dentro das gotículas ou apenas sobrevivendo passivamente. Diversas linhas de evidência apontaram para a primeira hipótese. As bactérias encontradas na água da neblina apresentavam tamanho significativamente maior do que aquelas presentes nas partículas secas suspensas no ar.

Além disso, a frequência de células em divisão era mais alta nas gotículas do que nos aerossóis intersticiais, sugerindo atividade biológica contínua. Os pesquisadores também observaram que, após os episódios de neblina, a quantidade de bactérias no ar aumentava em média 45%, resultado difícil de explicar sem admitir algum grau de multiplicação microbiana durante o fenômeno.

Para Garcia-Pichel, essa constatação representa uma mudança conceitual importante: “Se elas estão crescendo, então as gotículas são um habitat. Isso representa uma mudança de mentalidade”. O próprio artigo científico sustenta essa interpretação. Os autores concluem que a explicação mais plausível para o conjunto de observações é que a água atmosférica presente na neblina constitui um micro-habitat aquático capaz de sustentar atividade metabólica intensa e crescimento microbiano temporário.

Impactos para a qualidade do ar e para o clima

As implicações da descoberta vão além da microbiologia. Ao atuar como centros de degradação de compostos químicos atmosféricos, as bactérias da neblina podem desempenhar um papel até então subestimado na química da atmosfera. Como grande parte dos episódios estudados ocorreu durante a noite, quando a radiação solar é insuficiente para impulsionar muitas reações fotoquímicas, a atividade microbiana pode representar uma rota alternativa para a transformação de poluentes.

“À noite, por exemplo, não há muita química atmosférica acontecendo. A química é impulsionada principalmente pelo sol e pela luz. Mas se as bactérias ainda estiverem fazendo seu trabalho mesmo durante a noite, elas podem ser importantes”, lembra Pierre Herckes, outro coautor do estudo.

Os especialistas também sugerem que os resultados podem exigir ajustes em modelos atmosféricos e climáticos. Atualmente, muitas simulações consideram as bactérias apenas como superfícies passivas que catalisam reações químicas.

“Pode ser importante considerar que, além de impulsionar reações químicas, as bactérias também crescem dentro dessas gotículas”, destaca Cao. “Isso pode mudar a forma como modelamos tudo até agora.”

Debate sobre a coleta de neblina

Outro aspecto levantado pela pesquisa diz respeito ao uso crescente da coleta de neblina como fonte alternativa de água potável em regiões áridas. Diversos projetos ao redor do mundo utilizam redes especiais para capturar gotículas de neblina e transformá-las em água para consumo humano. A prática costuma ser apresentada como uma fonte relativamente limpa de abastecimento.

Os resultados da nova pesquisa, entretanto, indicam que a água coletada da neblina contém populações bacterianas abundantes e, portanto, deve passar por processos adequados de tratamento, assim como ocorre com outras fontes hídricas. O próprio artigo destaca que algumas espécies identificadas pertencem a grupos conhecidos por incluir patógenos oportunistas.

Além disso, os pesquisadores indicam uma questão ambiental ainda sem resposta: remover grandes volumes de neblina da atmosfera poderia reduzir a capacidade natural de degradação de poluentes proporcionada por esses microrganismos. “Se coletarmos a neblina, estaremos nos livrando de nossos pequenos amigos do ar”, observa Garcia-Pichel. “Não sabemos se isso terá um grande impacto ou não, mas devemos levar isso em consideração.”

Fonte: Revista Galileu

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