Depois de anos atravessados por denúncias, mortes e processos judiciais, as girafas que sobreviveram à captura na África do Sul, à travessia intercontinental e ao confinamento no Rio de Janeiro podem ter como novo endereço outro recinto fechado, agora no Distrito Federal. Muda-se o CNPJ, muda-se o CEP, mas não se altera a lógica.
As tratativas envolvem o Zoológico de Brasília, o BioParque do Rio e o Ibama. Fala-se em alinhamento técnico, protocolos de bem-estar, estudos de readequação do espaço antes ocupado por Yaza, a girafa que morreu em março de 2025. O vocabulário é o da responsabilidade institucional. O histórico recente, porém, impõe cautela e desconfiança.
O caso das 18 girafas levadas para o empreendimento em Mangaratiba, vinculado ao Hotel Safari Portobello, tornou-se símbolo de um sistema que falhou em múltiplas etapas. Denúncias de maus-tratos, suspeitas de contrabando e questionamentos sobre o licenciamento ambiental levaram o episódio à Justiça Federal do Rio de Janeiro. Quatro animais morreram em território fluminense. Agora, dois sobreviventes podem ser transferidos como se a simples mudança de gestão representasse reparação.
Não representa.
O zoológico de Brasília carrega um histórico de óbitos que jamais foi plenamente esclarecido à sociedade. A morte de Yaza não ocorreu em um vácuo. Ela se insere em um contexto nacional de estruturas públicas pressionadas por escassez de recursos, descontinuidade administrativa, rotatividade de equipes e falhas de transparência. A promessa de reformar um recinto após a morte de seu ocupante não é sinal de excelência, muito pelo contrário.
Essas girafas suportaram captura, transporte internacional, confinamento prolongado e o desgaste de uma batalha judicial que expôs fragilidades graves no controle ambiental brasileiro. Convertê-las em atração permanente de zoo não corrige o erro original. Apenas o institucionaliza sob nova direção.
A defesa de que a transferência cumpre normas vigentes contorna a pergunta essencial. Legalidade não esgota a discussão. O centro do debate é ético. Manter esses animais de grande porte em cativeiro permanente, após terem sido vítimas de um processo marcado por mortes e irregularidades, dificilmente pode ser apresentado como desfecho virtuoso para a causa animal.
Há alternativas que raramente ocupam o centro das decisões. Santuários especializados, com áreas extensas e foco em reabilitação, nacionais ou internacionais, poderiam oferecer condições mais compatíveis com as necessidades biológicas e comportamentais da espécie. Parcerias voltadas à conservação in situ, no continente africano, ainda que complexas e custosas, deveriam integrar seriamente o debate. O que falta não é apenas viabilidade técnica. Falta vontade política para romper com a lógica da exibição como destino padrão.
Ao insistir na rota dos zoos, o poder público transmite uma mensagem inequívoca de que animais traficados ou envolvidos em escândalos ambientais seguem destinados a viver atrás de grades, apenas sob outro gestor. Não se trata de desqualificar o trabalho de técnicos e tratadores. Trata-se de reconhecer que o modelo, como vem sendo aplicado, falhou repetidas vezes e que repetir a fórmula não é sinônimo de reparação.
Não há celebração possível quando sobreviventes de um escândalo ambiental são redistribuídos como peças de um acervo vivo. Se há algo a reparar, que seja a escolha do caminho. Para essas girafas, o mínimo aceitável é um futuro que não reproduza o ciclo de confinamento, perdas e opacidade que já marcou suas trajetórias.