A formação do El Niño está próxima. Uma gigantesca massa de água excepcionalmente quente, denominada Onda Kelvin, avança sob a superfície do Pacífico equatorial, o que, para cientistas, se assemelha a mecanismos observados antes de alguns dos mais intensos eventos já registrados.
Conforme a meteorologista Estael Sias, da MetSul, no centro desta chamada engrenagem climática em evolução está uma “piscina” de águas muito quentes que avançou nas profundezas do oceano, abaixo da superfície do mar do Oeste do Pacífico, perto da Indonésia, para Leste, rumo à América do Sul.
Neste momento, após ter avançado por milhares de quilômetros e cruzado quase toda a extensão do Oceano Pacífico, de Oeste para Leste pela região equatorial, estas águas extremamente quentes começaram a chegar à costa Oeste da América do Sul, emergindo na superfície, junto aos litorais do Peru e do Equador.
A meteorologista explica que os dados mostram que a Onda Kelvin é extremamente intensa. Partes do oceano profundo chegaram a ficar 8°C acima da média histórica, “um valor impressionante para o oceano, que normalmente varia muito lentamente de temperatura”.
Comparativo
Especialistas da agência de clima dos Estados Unidos, a NOAA, já compararam o atual comportamento do Pacífico com esta Onda Kelvin ao observado antes do forte El Niño de 1997-1998, um dos mais destrutivos do século passado.
Naquele período, o fenômeno causou prejuízos globais estimados em dezenas de bilhões de dólares, com enchentes devastadoras em algumas regiões e seca severa em outras.
Surgimento do El Niño de 2026
O processo atual começou a ganhar força quando os ventos alísios enfraqueceram e surgiram os chamados Estouros de Vento de Oeste (WWB, na sigla em inglês), com rajadas sopradas na direção oposta do habitual. Esse movimento ajuda a empurrar o calor acumulado no Pacífico Oeste ao Centro e Leste do oceano.
O episódio de abril foi decisivo para a criação da atual Onda Kelvin e potencializou ciclones tropicais na região, acelerando ainda mais o transporte de água quente sob a superfície do mar.
“À medida que essa onda de calor submarina avança pelo Pacífico, ela modifica a chamada termoclina, a camada que separa as águas superficiais quentes das águas profundas frias. Com a termoclina mais profunda, diminui a ressurgência de águas frias perto da costa da América do Sul, favorecendo o aquecimento da superfície do oceano. É justamente esse aquecimento das águas superficiais do Pacífico Central e Leste na faixa equatorial que caracteriza o El Niño.”, esclarece Estael.
Com a mudança no oceano, consequentemente, a atmosfera também muda. Áreas de tempestades tropicais se deslocam de posição e alteram padrões globais de circulação atmosférica.
Estael salienta que há consenso sobre a preocupação do cenário atual, já que os oceanos globais estão mais aquecidos em função das mudanças climáticas. “Isso significa que um El Niño forte pode atuar sobre uma atmosfera já carregada de calor e umidade, ampliando extremos meteorológicos.”
“Outro quase consenso é que ainda há incerteza sobre a real intensidade final do evento de El Niño neste ano, embora os sinais atuais sejam muito fortes do potencial de um episódio forte a intenso durante o segundo semestre deste ano com impactos no clima ao redor do mundo e também no Brasil”, pontua a meteorologista.
Fonte: ABC+