Um vazamento de petróleo atingiu as margens de uma ilha paradisíaca no Golfo Pérsico, no Irã, cercada por águas cristalinas e turquesas que servem de refúgio para tartarugas marinhas e golfinhos ameaçados de extinção, segundo vídeos que circulam nas redes sociais. A pequena ilha desabitada de Shidvar é uma das reservas naturais mais importantes do país persa. Ela abriga grandes recifes de corais e é um berçário para mais de 80.000 aves.
Os vídeos, verificados pelo New York Times, mostram grandes faixas escuras de petróleo serpenteando pelas praias de areia branca da ilha. Pássaros, tartarugas e caranguejos podem ser vistos presos em meio a montes de piche.
— É conhecida como as Maldivas do Irã, um lugar lindo — contou Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas.
Os vídeos forneceram algumas das primeiras evidências do impacto ambiental que a guerra causou na região. O Irã está sob um bloqueio de internet desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra no final de fevereiro, limitando severamente a visibilidade dos impactos do conflito.
Em um dos vídeos, um pequeno barco navega por águas escuras devido a uma mancha de petróleo, enquanto os homens a bordo apontam para a fumaça que sobe da refinaria de petróleo na ilha de Lavan, nas proximidades.
Os vídeos parecem ter sido gravados pouco depois de 8 de abril, quando a mídia estatal iraniana informou que a refinaria de Lavan foi atingida, horas após um cessar-fogo ter entrado em vigor. Não está claro por que os vídeos surgiram mais de um mês depois, mas provavelmente se deve ao recente relaxamento das restrições ao bloqueio de internet em todo o Irã.
A causa da devastação, afirmou o Madani, foi provavelmente o ataque à refinaria de Lavan.
— Esse vídeo, posso afirmar com bastante certeza, é do vazamento de petróleo em Lavan, e sabemos a causa disso — acrescentou.
Outra mancha de petróleo foi detectada perto da Ilha de Kharg, um dos locais mais importantes para exportação e armazenamento de petróleo do Irã. Mas as causas ainda não estão claras. Alguns funcionários americanos acusam o Irã de ter despejado ou gerenciado petróleo de forma inadequada nas águas do Golfo Pérsico. O Irã nega as acusações, e Madani afirmou que não há evidências disponíveis para sustentar a teoria do despejo.
Os danos causados por derramamentos de petróleo ao frágil ecossistema do Golfo Pérsico ainda são desconhecidos. Mas podem se estender além dos animais, ressaltou Manoochehr Shirzaei, um especialista ambiental iraniano que leciona geofísica e sensoriamento remoto na Universidade Virginia Tech.
— Entre as consequências mais imediatas e abrangentes podem estar os impactos na infraestrutura de dessalinização, já que muitos países do Golfo dependem fortemente da água do mar dessalinizada para o abastecimento de água municipal e industrial — disse ele. — Essas instalações captam água do mar diretamente do Golfo Pérsico, tornando-as altamente vulneráveis à contaminação por petróleo.
Shirzaei afirmou ter conseguido detectar várias manchas de petróleo nas águas de Shidvar e Lavan com imagens de satélite. Ele também utilizou imagens de satélite do início de maio para detectar a grande mancha de petróleo relatada perto da Ilha de Kharg, que também pode ter sérias consequências ambientais para a região.
Os derramamentos de petróleo ocorrem em um período particularmente crítico do ano para o ecossistema da região, dizem os especialistas. Atualmente, é época de reprodução para muitas aves, que podem ter dificuldades para encontrar alimento para seus filhotes perto da ilha de Shidvar e podem não ter tempo para se adaptar à mudança repentina em seu habitat. Nas praias da ilha, milhares de filhotes de tartaruga deveriam estar emergindo neste momento das areias agora cobertas de petróleo, o que pode tornar seus primeiros passos fatais.
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Fonte: O Globo