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TRAVESSIA OCEÂNICA

De Paris para o Brasil: estudo revela jornada de ave que cruzou mais de 10 mil km e foi resgatada no RJ

Caso publicado em revista científica internacional mostra como pardela-preta saiu da região subantártica e chegou debilitada ao litoral fluminense, expondo desafios da vida marinha em escala global

8 de abril de 2026
Nilson Cortinhas
5 min. de leitura
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Foto: Instituto Albatroz/Divulgação

Uma ave marinha que percorreu mais de 10 mil quilômetros entre o sul do Oceano Índico e o litoral brasileiro foi resgatada em estado crítico no Rio de Janeiro, mas se recuperou. E agora se tornou tema de um artigo científico publicado na revista Marine Ornithology, que detalha sua jornada e os impactos fisiológicos dessa travessia extrema.

A pardela-preta (Procellaria aequinoctialis), encontrada em julho de 2024 na Praia Grande, em Arraial do Cabo, chegou debilitada ao Centro de Reabilitação do Instituto Albatroz, com sinais de exaustão, desnutrição e comprometimento fisiológico. O resgate é um caso científico importante por um detalhe incomum: a ave carregava uma anilha de identificação francesa, que permitiu rastrear sua origem nas Ilhas Kerguelen, na região subantártica.

“O que mais chamou atenção, logo no primeiro momento, foi o fato de o animal estar anilhado e, principalmente, a origem dessa anilha, vinculada a um centro de pesquisa na França”, explica a médica-veterinária do Instituto Albatroz, Daphne Goldberg.

A identificação permitiu conectar o estado clínico da ave a uma travessia oceânica. Segundo o estudo, a ave havia sido marcada ainda jovem em abril de 2023 e foi encontrada no Brasil 485 dias depois, permitindo reconstruir com precisão parte de sua trajetória entre oceanos.

Viagem oceânica

Embora adaptadas ao voo de longa distância, aves como a pardela-preta enfrentam um desgaste significativo ao cruzar oceanos. No caso analisado, o impacto foi detalhado.

“Mesmo sendo aves altamente adaptadas ao voo oceânico, uma travessia dessa magnitude impõe grande custo fisiológico. A ave precisa mobilizar reservas de gordura e proteína para manter funções vitais. Se houver dificuldade para encontrar alimento ou condições adversas, ela entra em balanço energético negativo”, explica Daphne.

Quando chegou ao Brasil, a ave pesava apenas 874 gramas, bem abaixo do esperado para a espécie,e apresentava anemia, desidratação e infestação por parasitas. Após cerca de 30 dias de tratamento intensivo, com hidratação, suporte nutricional e monitoramento clínico, o animal recuperou peso e foi devolvido à natureza.

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