Uma corrente oceânica responsável por regular boa parte do clima do planeta vai enfraquecer significativamente mais do que o previsto até o fim deste século — e os cientistas estão preocupados com isso.
É o que aponta um estudo publicado na última quarta-feira (15/04) na revista “Science Advances”, realizado por pesquisadores franceses da Universidade de Bordeaux e do centro de pesquisas Inria.
O sistema estudado é a AMOC (sigla em inglês para Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico), uma espécie de “esteira transportadora” de águas oceânicas que leva calor dos trópicos para o Atlântico Norte.
Ao chegar perto do Ártico, essa água quente e salgada esfria, afunda e retorna às profundezas do oceano, completando um ciclo vital para a distribuição de calor pelo planeta.
O problema é que esse ciclo está ficando mais lento. E agora, um novo método de análise indica que a desaceleração será bem mais grave do que a maioria dos modelos climáticos havia estimado.
Por que os modelos erravam
Os modelos climáticos usados pelo IPCC — o painel científico da ONU sobre mudanças climáticas — previam uma desaceleração de 32% na AMOC até 2100, em um cenário de emissões intermediárias.
O novo estudo, porém, chegou a uma estimativa de 51%, com margem de erro de 8 pontos percentuais. Ou seja: uma queda 60% mais intensa do que a projetada pela média dos modelos.
A diferença está na metodologia. Os pesquisadores combinaram os modelos climáticos com dados reais do oceano (temperatura e salinidade da superfície do Atlântico) para identificar quais modelos são mais fiéis à realidade.
O resultado foi revelador: os modelos que melhor reproduzem as condições reais observadas nos oceanos são justamente os mais pessimistas sobre o futuro da AMOC.
Em outras palavras, os cientistas descobriram que estavam sendo otimistas demais — e que a realidade tende a ser pior do que a média das previsões indicava.
Parte desse erro vinha do Atlântico Sul. Os modelos costumavam representar a salinidade da superfície dessa região como mais baixa do que ela é de fato, o que fazia a circulação parecer mais estável.
Quando os pesquisadores corrigiram esse ponto com dados observacionais, o enfraquecimento projetado aumentou significativamente. Segundo o estudo, quase metade da diferença — cerca de 47% — está ligada justamente à salinidade no Atlântico Sul.
Mas por que isso é importante? A AMOC é uma parte vital do movimento das águas oceânicas, fenômeno que tem um impacto importante na distribuição do calor pelo nosso planeta. Tecnicamente, esse conceito é chamado de circulação termohalina.
Como cerca de 90% do calor global está armazenado nos oceanos, as mudanças nessas correntes influenciam o clima em diversas regiões do globo.
O que muda na prática
A AMOC já estava no seu ponto mais fraco em 1.600 anos, segundo estudos anteriores, e sinais de alerta de um possível colapso foram identificados por cientistas desde 2021.
O que o novo trabalho faz é mostrar que os modelos considerados pessimistas eram, na verdade, os mais realistas.
Uma desaceleração tão intensa — próxima dos 51% projetados — se enquadra no que o próprio IPCC classifica como um “enfraquecimento substancial” da AMOC.
E as consequências disso seriam amplas e graves. Segundo o artigo, uma das principais seria o deslocamento para o sul da zona de convergência intertropical, a faixa de chuvas que alimenta a agricultura do Sahel, região semiárida da África que já enfrenta crises alimentares recorrentes.
Além disso, há o risco de invernos muito mais rigorosos e secas intensas na Europa Ocidental, além de elevação adicional do nível do mar ao redor do Atlântico.
O estudo, contudo, não afirma que o colapso da AMOC é inevitável neste século, mas aponta que o sistema está mais próximo desse limiar do que se imaginava.
E há um agravante: os modelos usados na pesquisa ainda não incorporam o derretimento da calota de gelo da Groenlândia, que também está injetando água doce no oceano e pode acelerar ainda mais o processo.
Os autores reconhecem essa limitação no artigo e apontam que futuros estudos devem incluir esse fator.
Para os pesquisadores, identificar onde os modelos climáticos erram é tão importante quanto projetar o futuro: é a partir dessas correções que as estratégias de adaptação poderão ser mais bem calibradas — e que a comunidade científica poderá produzir estimativas cada vez mais confiáveis sobre um dos sistemas mais complexos do planeta.
Em fevereiro de 2025, um estudo do serviço meteorológico britânico e da Universidade de Exeter, publicado na revista “Nature”, havia apontado que o colapso completo da AMOC neste século era improvável, mas que o sistema seguiria enfraquecendo.
O novo artigo não contradiz essa conclusão, mas indica que esse enfraquecimento será consideravelmente maior do que o estimado até agora.
Fonte: G1