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AQUECIMENTO GLOBAL

Branqueamento de corais avança no Brasil, ameaça espécies e revela faceta cruel da crise climática nos oceanos

Evento extremo de 2024 provocou mortalidade elevada e risco de extinção de espécies endêmicas no país

16 de abril de 2026
Nilson Cortinhas
4 min. de leitura
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Foto: Leandro Santo

A crise climática tem um impacto diverso e complexo, ainda não completamente desvendado. Nos oceanos, ela revela uma de suas facetas mais cruéis: o branqueamento de corais, estado crítico de estresse que pode levar à morte esses berçários da vida marinha se o calor persistir.

Em abril de 2024, a NOAA e a Iniciativa Internacional de Recifes de Coral declararam o quarto evento global de branqueamento de corais, o mais extenso já registrado, com até 80% dos recifes do planeta sob estresse térmico. No Brasil, o cenário se refletiu em um segundo grande episódio do fenômeno, com registros de alta mortalidade em áreas do Nordeste. O primeiro havia sido observado em 2019.

O episódio foi provocado por uma onda de calor associada ao fenômeno El Niño, que elevou a temperatura do mar e atingiu com maior intensidade áreas do Nordeste, como Maragogi (AL), Natal (RN) e Salvador (BA).

O diagnóstico reforça que o Brasil, antes menos afetado em comparação a outras regiões do mundo, passou a integrar o mapa global de vulnerabilidade dos recifes, com mortalidade elevada, perda de biodiversidade e risco real de extinção de espécies que existem apenas no país.

“O que ele demonstra é que esse problema de onda de calor e branqueamento, do qual o Brasil estava escapando ileso, agora está começando a afetar criticamente o país”, afirma o oceanógrafo Miguel Mies, pesquisador do Instituto Coral Vivo.

“A gente está enfrentando um nível de problema que era inédito para o Brasil, com espécies apresentando mortalidade superior a 90% e risco verdadeiro de extinção na costa brasileira”.

O que está acontecendo?

O branqueamento é um processo ligado ao aumento da temperatura dos oceanos. Corais vivem em simbiose com microalgas, responsáveis por fornecer energia ao organismo por meio da fotossíntese. Quando o calor se intensifica, essa relação entra em declínio.

“O coral é um animal que depende de microalgas que vivem dentro dele. Quando a temperatura sobe, essas algas passam a produzir substâncias tóxicas, e o coral expulsa esse parceiro. Ele perde sua principal fonte de alimento e pode morrer”, explica Mies.

O resultado é o branqueamento, que é quando o coral perde sua coloração, e, em casos prolongados, a morte do organismo. No Brasil, o fenômeno já mostra sinais de recorrência: o primeiro grande evento havia sido registrado em 2019, e o de 2024 indica uma tendência de intensificação.

Impactos

Os recifes de corais estão entre os ecossistemas mais importantes do planeta. Embora ocupem menos de 1% da área dos oceanos, concentram cerca de um terço da biodiversidade marinha e sustentam atividades econômicas essenciais. “Eles fornecem serviços fundamentais para a sociedade, como pesca, turismo e proteção costeira”, destaca o pesquisador. “Só enquanto o recife está vivo é que essas benesses existem. Quando ele morre, tudo isso se perde”.

De acordo com estimativas globais citadas pelo pesquisador, cerca de 500 milhões de pessoas dependem diretamente dos recifes, que também estão associados a uma economia de trilhões de dólares por ano. No Brasil, a degradação desses ambientes pode afetar desde a segurança alimentar até a renda de comunidades costeiras.

Ciência

Diante do avanço da crise, a ciência tenta acelerar respostas. O Projeto Coral Vivo, que há mais de duas décadas pesquisa a biologia e a reprodução dos corais, atua na linha de frente dessas estratégias.

O projeto coordena o maior programa contínuo de monitoramento de corais do mundo, acompanhando recifes ao longo de 2.649 quilômetros da costa brasileira, e desenvolve estudos sobre reprodução, que é um dos caminhos para aumentar a resiliência das espécies.

“O estudo da reprodução permite entender se essas populações estão conseguindo se renovar, produzir larvas e se estabelecer novamente no ambiente. Isso é essencial para pensar em recuperação dos recifes”, explica Mies. Além disso, pesquisadores destacam que reduzir pressões locais, como poluição, sobrepesca e impactos do turismo, é fundamental para aumentar a capacidade de resistência dos corais frente ao aquecimento global.

Reconhecimento

Em meio a esse cenário de instabilidade, o Projeto Coral Vivo foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas como uma das iniciativas da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que reúne cerca de 600 projetos em todo o mundo.

“O reconhecimento reforça o papel da ciência brasileira na agenda global do oceano e valoriza uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas”, afirma Mies. “É também um compromisso de produzir conhecimento aplicado e contribuir com soluções concretas para a conservação dos recifes”.

Velocidade da crise

Apesar dos avanços científicos e do reconhecimento internacional, o ritmo das mudanças climáticas segue como principal ameaça. Soluções estão sendo elaboradas, ainda em um ritmo inapropriado diante da crise climática. “Para o conhecimento gerar impacto, ele precisa ser incorporado às políticas públicas. É essencial fortalecer a gestão das áreas marinhas protegidas e integrar a conservação dos recifes às agendas climáticas”, afirma Mies.

Fonte: Um só Planeta

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