O estampido seco de um disparo rompeu a rotina de quem passava pelo estacionamento do Estádio Serra Dourada, em Goiânia (GO), na tarde de domingo (05/04). Segundos depois, o silêncio foi ocupado pelo som de um cachorro agonizando até não resistir. No chão, o corpo de “Brutus”, um cão conhecido e cuidado por moradores da região.
Imagens feitas por moradores mostram Brutus já caído no chão, sem vida, enquanto o agente, ainda uniformizado, permanece no local. A cena é acompanhada à distância por um casal, que reage com incredulidade e revolta. “Ô desgraçado, o que você fez aí? Matou o cachorro?”, questiona o homem. A mulher, visivelmente abalada, pede socorro imediato: “Liga para a polícia, amor, corre, 190”. Em seguida, ela descreve o sofrimento do cachorro: “Eu escutei o tiro e ouvi o cachorro agonizando, uivando até parar”.
O Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Goiás (CBMGO), alega que o agente foi cercado por um grupo de cinco a seis cães e atacado, além de afirmar que há registros recorrentes de ataques envolvendo cães na região, mas os moradores desmentem a instituição. De acordo com eles, Brutus vivia na região desde o fim de 2025 e era conhecido por seu comportamento dócil e sociável. Ele convivia pacificamente com adultos, crianças e outros animais, sem qualquer histórico de agressividade.
Brutus circulava entre o Parque Flamboyant, a Praça das Artes e o entorno do estádio, onde era cuidado por pessoas da comunidade. Quando apareceu pela primeira vez, estava ferido, inclusive com problemas em um dos olhos, e, ao longo do tempo, recebeu alimentação, medicação básica e atenção de quem se sensibilizou com sua condição. Tornou-se parte da comunidade e da rotina de quem frequentava a área.
A alegação de ataque coletivo também é colocada em dúvida por testemunhas, que afirmam que o comportamento do animal não condiz com a narrativa apresentada pelo bombeiro. Para eles, o que ocorreu não foi legítima defesa, mas uma reação extrema, desnecessária e fatal diante de um animal vulnerável.
O caso está sendo investigado pela Polícia Civil do Estado de Goiás (PCGO), que realizou perícia no local.
Agentes públicos treinados para proteger vidas, sejam humanas ou não humanas, não podem se tornar fonte de ameaça ou morte. Bombeiros e policiais carregam a responsabilidade ética e institucional de agir com preparo, controle e proporcionalidade, especialmente diante de situações de risco. Quando a resposta a um possível confronto com um animal é o uso letal da força, o que se mostra é um falha de conduta, treinamento e compromisso com a vida.