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CRISE

Adaptação climática extrema: Veneza pode precisar ser realocada com avanço do nível do mar, aponta estudo

Pesquisador alerta que nenhuma medida de adaptação será suficiente no longo prazo para preservar a cidade italiana diante das mudanças climáticas

17 de abril de 2026
Nilson Cortinhas
3 min. de leitura
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Vista do Grande Canal, em Veneza, com a Basílica de Santa Maria della Salute ao fundo; cidade enfrenta pressão crescente da elevação do nível do mar. Foto: Emanuele Cremaschi/Getty Images

Um dos principais destinos turísticos do mundo, Veneza corre risco existencial com o avanço das mudanças climáticas. Um novo estudo, publicado na revista Scientific Reports na quinta-feira (16/04), afirma que a cidade pode precisar ser parcialmente ou totalmente realocada diante da elevação do nível do mar. A pesquisa avaliou as estratégias possíveis de adaptação da cidade italiana com base nas projeções climáticas do IPCC, o painel climático da Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com os pesquisadores, a conclusão é assustadora: nenhuma das medidas disponíveis hoje é capaz de preservar, no longo prazo, a estrutura urbana e o patrimônio histórico de Veneza como conhecemos.

A cidade, situada em uma lagoa costeira rasa e reconhecida como Patrimônio Mundial da Unesco, já enfrenta um aumento progressivo das inundações ao longo dos últimos 150 anos. O fenômeno foi intensificado em função da crise climática.

A barra de cores mostra a elevação das áreas terrestres ao redor da lagoa de Veneza e das ilhas da lagoa, sobrepostas à imagem de satélite de fundo. Os valores são relativos ao nível médio do mar no final do século XX. A linha branca representa o limite jurisdicional da lagoa, que se aproxima de seu limite físico, exceto no porto. Foto: Reprodução do artigo

Em 2019, uma enchente severa causou mortes e prejuízos de centenas de milhões de euros, atingindo inclusive a Basílica de São Marcos. Mesmo com intervenções recentes, como barreiras de proteção e planos de restauração, há críticas e alertas já que essas soluções são apenas paliativas.

O estudo aponta três caminhos possíveis para o futuro da cidade. O primeiro envolve a construção de diques ao longo da costa, alternativa considerada necessária caso o nível do mar suba mais de 0,5 metro — situação que pode se concretizar ainda neste século. O custo projetado fica entre € 500 milhões e € 4,5 bilhões, cerca de R$ 2,7 bilhões e R$ 24 bilhões.

Uma segunda opção seria a construção de um “superdique” para fechar a lagoa, capaz de proteger Veneza mesmo com elevações severas do nível do mar. Nesse caso, os custos ultrapassariam € 30 bilhões e envolveriam impactos significativos no ecossistema local.

Já a terceira alternativa, considerada em último caso, prevê a realocação da cidade, incluindo moradores e estruturas históricas, caso o nível do mar supere 4,5 metros, projeção associada a cenários de longo prazo, após o ano 2300. O custo dessa operação pode chegar a € 100 bilhões.

“O que mostramos é que não existe uma estratégia ideal para Veneza”, afirma o pesquisador Robert Nicholls, autor do estudo, ao portal Euronews.

Segundo Nicholls, qualquer decisão exigirá equilibrar fatores como segurança da população, economia local, preservação ambiental e proteção do patrimônio cultural.

Além da elevação do nível do mar, a cidade enfrenta um outro agravante: o afundamento gradual do solo, estimado em cerca de 1 milímetro por ano. O fenômeno, de origem natural, foi intensificado no passado pela extração de água subterrânea, prática que, atualmente, é proibida.

Veneza é um caso emblemático de um desafio global. Regiões costeiras de baixa altitude, como as Maldivas e partes dos Países Baixos, enfrentam riscos semelhantes nas próximas décadas e séculos. “A elevação do nível do mar é um problema de longo prazo, mas as decisões precisam começar agora”, argumenta Nicholls.

Fonte: Um só Planeta

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