No dia 22 de março de 2026, uma rã indefesa foi apertada, sacudida, arremessada, e perseguida no programa ‘Domingo Legal’, do SBT, aos gritos e risadas da plateia. Os protagonistas desse episódio abjeto foram o apresentador Celso Portiolli e a chef responsável pelo “cardápio exótico” exibido no programa, cuja vítima, a rã, era uma representante da espécie utilizada na suposta iguaria culinária. A cena, que gerou forte repercussão e indignação social, deu origem a uma ação civil pública movida pelas ONGs Instituto Thaís Viotto, Canto da Terra, e pela Agência de Notícias de Direitos Animais (ANDA).
É triste pensar que em 2007 o SBT já havia sido processado [1] por promover valores especistas e maus tratos a animais. E pior, num programa destinado a crianças, o “Bom Dia e Cia”. A produção – apresentada por dois adolescentes – incluía além de desenhos animados, “brincadeiras” diversas que usavam animais, como “Rato no tubo”, “Corrida de ratos”, Futebol, e “Prova do coelho”. As crianças eram incentivadas a participar das provas por meio de ligações telefônicas, e era premiado quem havia escolhido o animal vencedor. Para a premiação girava-se uma roda com os nomes de vários prêmios e a criança ganhava o item sorteado, não necessariamente o prêmio que havia previamente escolhido.
Em todos os casos os animais eram submetidos a experiências estressantes, associadas a danos não apenas psicológicos (gritos dos apresentadores), mas também físicos: a respiração acelerada, forçada, com mudança do ritmo cardíaco – decorrentes do estresse – e a presença contínua de substratos sintéticos sobre os quais os animais eram obrigados a se locomover (ou permanecer), podiam causar lesões e até doenças. No caso da partida de futebol isso era ainda mais contundente, pois o animal girava dentro de uma esfera que, além de alterar seus movimentos naturais, demandava uma vigilância permanente para que ele se mantivesse em equilíbrio.
Considerações pedagógicas sobre as “brincadeiras”:
Do ponto de vista do chamado “currículo oculto” [2], as crianças aprendiam desde cedo a ver os animais como objetos de diversão ou brinquedos, o que reforça o especismo dominante na nossa cultura. Ao banalizar o uso de animais para fins de diversão, ignorando sua condição de seres sencientes, o “Bom Dia e Cia” promovia valores que se coadunam com atos de exploração de animais, consolidando o paradigma que se encontra no cerne da nossa atual crise ambiental e moral. Em nenhum momento se questionou se os animais estariam fazendo tais peripécias de bom grado, se para eles aquelas situações eram estressantes ou desagradáveis, ou como seriam suas vidas caso não fossem obrigados a estar ali para divertir os humanos. As brincadeiras eram estúpidas, pois além de causar danos aos animais, associavam vitórias e prêmios a comportamentos caóticos por parte dos animais, quando poderiam ser premiadas situações que incentivassem o aprimoramento de habilidades físicas, artísticas, ou intelectuais das crianças.
Especista e indutor de maus tratos era também o conteúdo de atividades como a “Charada” que, em seu terceiro item, mostrava a figura de um rato + (mais) o sufixo “eira”, levando à formação da palavra “ratoeira”. Num programa onde os animais são tratados como coisas, a aparição da palavra “ratoeira” reforça a imagem negativa deles: ora são coisas, ou objetos de diversão; ora são seres indesejáveis que devem ser exterminados. Esse é um bom exemplo de “aprendizado incidental”, aquele que contribui mais para a formação de valores do que aulas ou outras formas de ensino cuja orientação de valores seja explícita. Em outras palavras, diversos conceitos negativos sobre os animais foram passados aqui de forma subliminar.
Havia também no programa um incentivo indireto aos “jogos de azar” (como as corridas de cavalos com apostas em dinheiro), uma vez que outra “brincadeira” era uma corrida de cavalos de madeira, estilo “Totó”. No contexto em discussão, o temor é que animais de carne e osso – a exemplo dos em madeira – pudessem ser vistos como objetos de diversão. Vale sublinhar que os resultados dessas disputas competitivas dependiam de mera sorte e não mérito, esforço, ou boa performance das crianças.
Vale ainda destacar que o prêmio mais desejado pelas crianças era o Playstation. Mas, como dito antes, elas ganhavam de fato o que era sorteado e não o que escolhiam. Estaria tal sistemática gerando um sentimento de frustração, levando-as a ligar de novo e submeterem mais animais aos danos aqui discutidos, ou importunar seus pais de modo a obterem o que desejavam?
Outros aspectos digressivos, mas importantes, são a adequação de celulares como prêmios para crianças pequenas e o estímulo ao consumismo, quando a apresentadora exibia roupas de uma empresa de moda famosa. Também lamentável era que na atividade “Você me conhece?” fossem expostas fotos de celebridades sobretudo do mundo da TV, quando imagens de cientistas, médicos, e outros profissionais contribuiriam muito mais para a boa formação da criança. Por fim, chamava a atenção a profusão de palavras em inglês para um público tão jovem, cuja língua é a portuguesa.
Considerações finais:
Não existe neutralidade na educação formal e tampouco na informal – como a que vem da mídia – embora a maioria dos jornalistas e professores acredite nisso. Para Karl Popper, quem trabalha em televisão participa de um processo de educação de alcance gigantesco. E Pierre Bourdieu destaca que os apresentadores de televisão muitas vezes falam levianamente, sem ter ideia da gravidade do que evocam e das responsabilidades em que incorrem ao evocá-las diante de milhares de telespectadores. Seria então de bom alvitre que se proibisse definitivamente o uso de animais não humanos na televisão. Essa seria uma inestimável contribuição rumo a uma educação crítica, na qual não há espaço para atitudes e valores antropocêntricos e especistas (Brügger, 2019; 2022).
Se desejamos viver num mundo melhor, e almejamos o mesmo para as gerações vindouras, é hora de tecermos com mais critério a trama de conteúdos que nortearão os valores e as atitudes principalmente dos que se encontram nas fases mais permeáveis a novas ideias e valores: a infância e a adolescência.
Referências bibliográficas:
BRÜGGER, Paula. Por uma educação duplo A: ambiental e abolicionista animal. In: FLORIT, Luciano Félix; SAMPAIO, Carlos Alberto Cioce; PHILIPPI JUNIOR, Arlindo. (ed.). Ética socioambiental. Barueri: Manole, 2019. p. 363-395.
BRÜGGER, Paula. Jornalismo especista: textos e fragmentos de olhares sobre os animais não humanos na mídia. Curitiba: Appris, 2022.
Notas:
[1]: As considerações sobre o programa “Bom Dia e Cia” são um breve resumo do meu parecer para a ação movida pelo Dr. Laerte Levai, contra o SBT, a pedido da UIPA (União Internacional Protetora dos Animais), em 2007.
[2]: Segundo os filósofos da educação Michael Apple e Henry Giroux, currículo oculto é basicamente o conjunto de normas e valores que é efetivamente transmitido em salas de aula, sem que seja explicitamente mencionado pelos professores quando da apresentação dos objetivos instrucionais. Isso envolve ainda as regras que organizam as rotinas em salas de aula, silêncios estruturais, mensagens ideológicas etc. Tenho defendido em meus trabalhos que esse conceito é válido também para o contexto educacional informal.