EnglishEspañolPortuguês

RECORDES DE TEMPERATURA

Pior onda de calor da Europa até hoje é explicada por mudanças climáticas causadas pela ação humana, aponta estudo

Análise da World Weather Attribution mostra que aquecimento global intensificou evento extremo e que quase metade das grandes cidades europeias enfrenta o maior estresse térmico já registrado.

27 de junho de 2026
4 min. de leitura
A-
A+
Mulher se abana em frente ao Parlamento durante a onda de calor de junho de 2026, em Londres, Inglaterra. Foto: Getty Images

A onda de calor que atinge a Europa Ocidental nesta semana não é apenas mais um episódio de temperaturas extremas. Segundo uma análise publicada pelo jornal britânico The Guardian, com base em um estudo do consórcio científico World Weather Attribution (WWA), trata-se da onda de calor mais intensa e abrangente já registrada na região — um evento que, de acordo com os pesquisadores, não teria ocorrido sem o agravamento do aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis.

Além das temperaturas recordes, o estudo destaca outro fator que aumenta os riscos à saúde: a combinação entre calor e umidade. De acordo com os cientistas, cerca de 45% das 850 maiores cidades da Europa vivem o pior nível de estresse térmico de sua história. Com mais umidade no ar, a evaporação do suor se torna menos eficiente, dificultando o resfriamento do corpo humano e elevando o risco de problemas de saúde.

A análise foi divulgada em meio a uma semana de recordes de temperatura no continente. Na terça-feira (23/06), o Reino Unido registrou sua maior temperatura já medida em um mês de junho: 36,7°C, em Somerset. Em diversos países da Europa Ocidental, hospitais relataram aumento nos atendimentos relacionados ao calor, enquanto escolas suspenderam aulas e parte da malha ferroviária e aérea sofreu interrupções.

Dados do Sentinel-3 do CopernicusEU de 23 de junho mostram temperaturas da superfície terrestre superiores a 50°C em partes da Europa. Foto: Divulgação/Copernicus

Segundo o WWA, o aumento da concentração de gases de efeito estufa tornou esse tipo de evento muito mais intenso. Se uma onda de calor semelhante tivesse ocorrido em 2003, por exemplo, ela teria sido cerca de 2°C mais fria. Em 1976, outro ano conhecido pelas altas temperaturas na Europa, seria aproximadamente 3,5°C mais amena.

Os pesquisadores também chamam atenção para um efeito menos visível: as noites excepcionalmente quentes. As temperaturas noturnas, que dificultam o descanso e aumentam o risco de mortalidade, hoje são cerca de 100 vezes mais prováveis do que eram em 2003.

“O planeta aqueceu cerca de 1,1°C nos últimos 50 anos e isso alterou profundamente a probabilidade de eventos como este”, afirmou Theodore Keeping, pesquisador do Imperial College London e integrante da equipe do WWA, em declarações reproduzidas pelo The Guardian. Segundo ele, uma onda de calor dessa magnitude “não teria sido possível em junho sem a mudança climática”.

Para medir o impacto real sobre a população, os pesquisadores utilizaram um indicador conhecido como temperatura de bulbo úmido de globo (WBGT), que considera não apenas a temperatura do ar, mas também fatores como umidade, radiação solar e vento. A conclusão é que quase metade das grandes cidades europeias experimenta as condições mais severas já registradas para esse índice.

Os cientistas destacam que o fenômeno atmosférico responsável pela onda de calor — um sistema de alta pressão conhecido como domo de calor, que aprisiona ar quente sobre a Europa e favorece a chegada de massas de ar vindas do Saara — não é incomum durante o verão europeu. Ainda que possa influenciar, o atual episódio de El Niño não justifica o calor extremo, o que, segundo pesquisadores, é reflexo do aquecimento do planeta provocado pelos gases de efeito estufa.

Prejuízos e vítimas

Os impactos, porém, vão além das temperaturas recordes. A atual onda de calor já pressiona hospitais, afeta o transporte público e altera a rotina em diferentes países europeus. Após a histórica onda de calor de 2003, governos investiram em sistemas de alerta e planos de resposta para eventos extremos. Especialistas afirmam, contudo, que não são suficientes e defendem novos investimentos em moradias, cidades e infraestrutura capazes de suportar temperaturas mais elevadas.

Dados da Agência de Segurança em Saúde britânica mostram que mais de 10 mil pessoas morreram em decorrência de ondas de calor entre 2020 e 2024. A Europa já havia registrado um dos episódios mais letais de calor extremo em 2022, quando mais de 60 mil pessoas morreram em decorrência das altas temperaturas. Embora ainda seja cedo para estimar o impacto da atual onda de calor, os pesquisadores afirmam que as consequências para a saúde pública deverão ser significativas.

Um estudo publicado neste ano sobre uma onda de calor menos intensa ocorrida em 2024 estimou que mais de 2.300 pessoas morreram em apenas três dias em 12 cidades europeias. Segundo a climatologista Friederike Otto, cofundadora do WWA, cerca de dois terços dessas mortes não teriam ocorrido sem as mudanças climáticas.

Para a pesquisadora, os episódios recentes reforçam uma mensagem que a ciência vem repetindo há anos: as soluções para reduzir o aquecimento global já são conhecidas, mas sua implementação ainda acontece em ritmo insuficiente.

Fonte: Um só Planeta

    Você viu?

    Ir para o topo