Agachado sobre a serrapilheira (camada de folhas secas no chão da floresta), um pesquisador busca captar um coaxo diferente com um microfone direcional. Identificar o som de um sapinho costuma ser uma das provas de que se encontrou uma nova espécie. É noite. Ele veste roupa comprida, para se proteger de mosquitos e formigas, e um par de botas, para impedir que se molhem os pés. Encontrar anfíbios na Amazônia não requer equipamento de alta tecnologia; remonta, na verdade, às explorações dos naturalistas do início do século 20.
É assim que o biólogo e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Igor Kaefer, descreve o que seria um típico dia de campo em busca de anfíbios amazônicos. Ele foi um dos responsáveis pela descoberta do Amazophrynella bilinguis, publicada em 2019. A própria descrição do sapinho já dá a noção da dificuldade de encontrá-lo: as fêmeas medem cerca de 2 cm, e sua cabeça e dorso marrons as fazem “desaparecer” entre as folhas e galhos.
Lar de 1.525 espécies estimadas de anfíbios, a bacia amazônica é a mais diversa do mundo quando se trata de sapos, rãs e pererecas. Porém, desse número, apenas cerca de 810 têm registros confirmados de ocorrência. Por isso, ir a campo e se deparar com uma nova espécie não é algo improvável. “Em quase todo inventário que se faz em uma área remota, volta-se com até mais de uma espécie nova para síntese”, conta Kaefer. Mas o intervalo entre encontrar, em campo, uma espécie, sua análise e a publicação de uma descoberta pode levar anos — “ao menos cinco”, relata.
Esse ar de novidades constantes esconde outro dado: entre 2001 e 2010, apenas 12% dos trabalhos sobre anfíbios brasileiros eram sobre espécies amazônicas, contra 60% de trabalhos na Mata Atlântica. O número revela a concentração de estudos no Sudeste do país, além de algumas das dificuldades de se pesquisar na maior floresta tropical do mundo, como a limitação de infraestrutura, difícil acesso a regiões remotas e falta de pessoal. “A espécie que está em extinção na Amazônia é o biólogo que entende de anfíbios”, complementa Kaefer.
Mais de 2.000 espécies de anfíbios estão ameaçadas de extinção no mundo, sendo o grupo de vertebrados mais vulnerável do planeta. Desse total, 48% estão diretamente ameaçados pela perda de seus habitats. Com isso, a lacuna de conhecimento acerca de anfíbios amazônicos ganha outra camada de complexidade: podemos estar perdendo populações inteiras antes mesmo de saber que elas existem.
Por que há tantas espécies de anfíbios na Amazônia?
Vista de cima, a floresta amazônica parece um bloco verde contínuo, mas ela é formada por um mosaico de habitats distintos (terra firme, várzeas, igapós, igarapés e outras áreas sazonalmente inundadas). Para anfíbios de poucos centímetros, essa heterogeneidade é ainda mais acentuada. Mesmo em um trecho de floresta que ao olhar humano parece uniforme, há diferenças decisivas para os anfíbios em relação à umidade, à altura da mata, ao tipo de solo e ao tipo da água.
“Ao longo de milhões de anos, as espécies se diversificaram e se especializaram nesses muitos habitats e em diferentes condições ambientais”, explica Igor. “Isso faz com que as espécies tenham se adaptado de maneiras muito distintas aos diferentes lugares. Mesmo dentro de um grande grupo de anfíbios, encontramos espécies com diferenças muito sutis umas das outras, mas já o suficiente para que se reconheça uma nova espécie.”
O exemplo mais emblemático dessas diferenças sutis está nos sapos-disco, da família Synapturanus. As espécies vivem sob o solo, com períodos reprodutivos breves, o que torna difícil sua observação. Linhagens que antes eram confundidas como uma única espécie hoje só são distinguidas graças a abordagens que combinam métodos genéticos, monitoramentos de vocalizações e análise dos ossos em modelos 3D.
Foi essa diversidade que atraiu Kaefer para a Amazônia. Natural do Rio Grande do Sul, ele chegou a Manaus em 2008 para fazer o doutorado, acompanhado da amiga Daiani Kochhan, hoje professora da UVA (Universidade Estadual do Vale do Acaraú), no Ceará. Embora tenha dedicado a carreira ao estudo de peixes amazônicos, Kochhan foi convencida pelo colega a também investir nos sapinhos, um campo com muito ainda por descobrir.
Kochhan ressalta que a diversidade amazônica não se limita ao número de espécies, mas inclui também uma variedade de comportamentos reprodutivos. Na escola, aprendemos que os anfíbios passam por duas fases, com metamorfose entre o girino e o adulto. “Na Amazônia, porém, há espécies com variações muito complexas nesse padrão, como cuidado parental ou girinos que eclodem do ovo e já vivem livres. Alguns colocam ovos na água; outros, na terra úmida”, explica. “E há espécies que só conhecemos na fase adulta; nunca vimos o girino.”
Essas diferenças também impõem um desafio para a fisiologia, área de investigação de Kochhan: há uma demanda por entender quais são os funcionamentos e processos desses organismos, desde as células até tecidos e órgãos. Sobretudo, entender como funcionam diante de pressões ambientais crescentes, como as associadas às mudanças climáticas.
“Quando se fala em mudanças climáticas e anfíbios, as grandes perguntas são quais espécies vão sobreviver, quais não vão e como esse processo vai ocorrer”, explica Kochhan. “No caso dos anfíbios, a urgência é maior, porque eles têm características que os tornam especialmente vulneráveis ao aumento da temperatura e a climas mais secos, como a respiração pela pele, que depende de umidade. Ter poucos dados sobre a Amazônia significa não compreender suficientemente esses processos e riscos.”
Dados do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq indicam que apenas cinco grupos na região Norte do país incluem anfíbios em suas linhas de pesquisa, dos quais três se dedicam sistematicamente à ecologia e à fisiologia do grupo.
Levantamento realizado pela Mongabay identificou 9.062 artigos científicos publicados sobre anfíbios amazônicos nos últimos dez anos. Desse total, apenas 3% tratam explicitamente da descrição de novas espécies. O clima, por outro lado, tem sido tema central na produção científica: são 3.411 menções à palavra-chave, embora persista um vazio de dados sobre a tolerância dos anfíbios a maiores temperaturas e suas capacidades de adaptação.
Mudanças climáticas e agrotóxicos: riscos emergentes de extinção
Para a região amazônica, os cenários de mudanças climáticas incluem não apenas dias mais quentes, mas também períodos mais severos de secas, como já foi observado entre 2023 e 2024. Estudos indicam que o aumento de secas prolongadas causará até 33% da perda de habitats de sapos, rãs e pererecas.
Além desse risco, as mudanças climáticas interagem com outros fatores que também afetam os anfíbios, como efeitos combinados entre alterações no clima e a contaminação da água por poluentes, como agrotóxicos e metais pesados. O biólogo Guilherme Azambuja investiga justamente essas interações, ainda pouco exploradas na literatura sobre a Amazônia.
“Uma das maiores dificuldades que encontrei foi a falta de estudos nessa linha em ambientes tropicais, como a Amazônia”, relata Azambuja. “Acabamos recorrendo a resultados obtidos na Europa ou na América do Norte, o que torna as comparações com a realidade daqui mais frágeis.”
Com resultados publicados em fevereiro de 2024, Azambuja testou com girinos de duas espécies (Osteocephalus taurinus e Scinax ruber) os efeitos isolados do aquecimento e da exposição ao inseticida metomil, um composto extremamente tóxico (Classe I) utilizado em lavouras e com alta solubilidade em água. Em um segundo momento, testou-se a exposição do agrotóxico junto a duas temperaturas: 26,5°C e 30°C.
Em ambas as espécies, o aumento de temperatura reduz a massa final dos animais. “Quando aumenta a temperatura, o metabolismo do animal se acelera mais, o que prejudica o aumento de massa”, explica Azambuja.
Com temperaturas elevadas e metabolismo acelerado, a respiração dos girinos também aumenta, o que pode explicar sua maior suscetibilidade à absorção de compostos presentes na água em cenários mais quentes. Houve uma sinergia clara para a perereca Osteocephalus taurinus: o calor dobrou a toxicidade letal do metomil.
Mas os resultados comprovam que não existe uma regra única na natureza, e as espécies respondem de forma distinta ao estresse duplo. No caso da letalidade, a perereca Scinax ruber demonstrou ser sensível ao agrotóxico independentemente da temperatura.
Para Azambuja, essa variação entre as espécies é o ponto central. É justamente porque há tanta diversidade de espécies que as respostas às mesmas condições também variam. Por isso, conhecer pouco sobre esses animais e seus modos de vida significa não compreender plenamente os impactos desses desafios, nem quais espécies podem estar sob maior risco.
De todo modo, Azambuja explica que as adaptações à temperatura ou aos compostos geram custos aos anfíbios, mesmo nos mais resistentes. “Há redução corporal, gerando animais mais magros e menores e, por mais que sejam resistentes, podem vir a ter menor aptidão sexual e dificuldades de reprodução. Às vezes o animal tolera ambientes mais quentes, mas permanece em um nível de estresse que talvez não seja sustentável em períodos mais longos, gerando um colapso do organismo”, pondera o pesquisador.
E o que estamos perdendo?
Construir argumentos para a conservação de anfíbios pode ser difícil: tidos como “nojentos” pela sociedade, os sapinhos passam por ameaças invisíveis e sua contribuição aos ecossistemas raramente é valorizada. Na UFC (Universidade Federal do Ceará), Karoline Ceron está tentando mudar essa realidade utilizando-se de um forte argumento: o dinheiro.
“Ao propor uma pesquisa para atribuir valor econômico aos anfíbios do Brasil, queremos caminhar junto de quem influencia a tomada de decisão no país, considerando o papel fundamental que o agronegócio tem na formulação de políticas públicas”, afirma Ceron. “Queremos construir um diálogo entre dois mundos: o da conservação e o da produção.”
Ainda em andamento, o estudo estima que anfíbios ajudam a evitar US$ 1,18 bilhão em prejuízos agrícolas no Brasil, apenas consumindo os insetos que atacam plantações. Para o cultivo da soja no Cerrado, por exemplo, os anfíbios poderiam representar uma economia anual em agrotóxicos de cerca de US$ 500 mil. Segundo a pesquisa, os anfíbios consomem cerca de 300 milhões de invertebrados por ano em áreas próximas a plantações no Cerrado.
Há também um papel relevante na saúde pública, sobretudo em regiões tropicais. Com o declínio dos anfíbios, perde-se parte do controle natural de vetores de doenças, como malária e dengue. Pesquisa conduzida na América Central detectou um aumento de casos de malária relacionado à perda de populações de anfíbios.
“Há um risco sinérgico, portanto”, conclui Ceron. “A perda de populações de anfíbios pode levar a maior uso de agrotóxicos e inseticidas, no campo e na cidade, o que por sua vez geraria novas contaminações e envenenamento ambiental.”
Fonte: Ecoa