
Dois peixes resgatados de um aquário em um restaurante de sushi em Buenos Aires tornaram-se protagonistas de uma decisão considerada histórica para o direito animal na Argentina. Ao reconhecer que eles são seres sencientes e sujeitos de direitos, a Justiça determinou sua transferência para um ambiente compatível com suas necessidades biológicas e estabeleceu um precedente que amplia o debate jurídico sobre a proteção dos animais aquáticos, tradicionalmente excluídos das discussões sobre bem-estar e direitos.
A informação foi confirmada pelo Ministério Público da Cidade Autônoma de Buenos Aires. O caso teve início após uma denúncia apresentada pela ONG Santuario Jaulas Vacías, que levou a Unidade Fiscal Especializada em Matéria Ambiental (UFEMA) a realizar uma inspeção em um restaurante localizado na região de Las Cañitas, onde dois peixes vivos eram mantidos em um pequeno aquário instalado na vitrine do estabelecimento como elemento decorativo.
Durante a operação, uma perícia veterinária constatou que os animais viviam em condições incompatíveis com suas necessidades fisiológicas e comportamentais. O aquário possuía capacidade de apenas 40 litros, volume considerado insuficiente para a espécie, comprometendo especialmente a natação horizontal, comportamento essencial para seu desenvolvimento e bem-estar.
O laudo técnico também identificou outros fatores capazes de provocar sofrimento aos animais. O aquário permanecia exposto à incidência direta da luz solar por meio da vitrine, provocando oscilações na temperatura da água ao longo do dia. Essas variações reduzem a concentração de oxigênio dissolvido, alteram o equilíbrio do ambiente aquático e representam um fator reconhecido de estresse para os peixes.
Além disso, os peritos verificaram problemas estruturais na instalação. As vibrações contínuas produzidas pela bomba de ar afetavam a percepção sensorial dos animais, enquanto a exposição permanente ao movimento de pessoas e veículos na rua aumentava os estímulos ambientais, intensificando o quadro de estresse.
Com base nas provas reunidas, o promotor Carlos Rolero Michienzi solicitou autorização judicial para busca e apreensão dos animais. A medida foi deferida, e os peixes foram retirados do estabelecimento e entregues provisoriamente à organização responsável pela denúncia.
Na sentença, o magistrado reconheceu expressamente que os peixes são seres sencientes e sujeitos de direitos, entendimento que fundamentou a determinação para que fossem transferidos a um aquário de aproximadamente 2.500 litros, capaz de oferecer condições ambientais mais compatíveis com as exigências da espécie.
O proprietário do restaurante foi condenado a oito meses de prisão com cumprimento em regime de liberdade condicional. A decisão também lhe impôs a proibição de manter animais sob sua guarda e a obrigação de participar de um curso sobre direito e questões ambientais. Segundo o Ministério Público, ele foi responsabilizado por negligenciar os cuidados necessários aos animais e mantê-los em instalações inadequadas.
Embora os avanços legislativos em favor dos animais costumem se concentrar em mamíferos e aves, a decisão argentina amplia o alcance da proteção jurídica ao reconhecer que peixes também são capazes de experimentar dor, estresse e outras formas de sofrimento. Nas últimas décadas, pesquisas em neurobiologia, comportamento animal e medicina veterinária acumularam evidências de que diversas espécies de peixes possuem sistemas nervosos complexos, respondem a estímulos nocivos, aprendem com experiências, demonstram memória e apresentam comportamentos compatíveis com a senciência.
Esses estudos vêm influenciando mudanças graduais em políticas públicas e normas de proteção aos animais em diferentes países. Ainda assim, peixes continuam entre os animais menos protegidos pela legislação e, ao mesmo tempo, figuram entre os mais explorados em atividades como pesca, aquicultura, comércio ornamental e entretenimento.
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