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AQUECIMENTO GLOBAL

Ondas de calor já afetam de aves a peixes e ampliam riscos para a biodiversidade

Pesquisas indicam que eventos extremos de temperatura afetam três em cada quatro espécies avaliadas, alterando comportamentos e aumentando a mortalidade

23 de junho de 2026
4 min. de leitura
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Peixes morrem com onda de calor na Europa em 2025. Foto: Asociación Checa de Pesca

As ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas provocadas pelas mudanças climáticas não afetam apenas os seres humanos. Em diferentes ecossistemas, aves, mamíferos, peixes, anfíbios e invertebrados enfrentam dificuldades para se alimentar, se reproduzir e, em casos extremos, sobreviver.

Os impactos ecológicos desses eventos extremos nos bichos ainda recebem menos atenção do que seus efeitos sobre a saúde humana, mas evidências científicas vêm mostrando a dimensão do problema. Um estudo publicado em março na revista Nature Ecology and Evolution concluiu que cerca de 75% das espécies terrestres e marinhas avaliadas sofreram impactos negativos durante a intensa onda de calor que atingiu o oeste da América do Norte em 2021.

Para Gregoire Lois, ornitólogo do Museu Nacional de História Natural de Paris, os eventos extremos representam um desafio adicional porque ocorrem de forma rápida, deixando pouco tempo para adaptação. “As ondas de calor podem ser brutais para a vida selvagem”, afirmou à agência de notícias AFP.

Entre os grupos mais vulneráveis estão as aves. Com temperatura corporal naturalmente elevada, entre 39°C e 42°C, elas podem sofrer ainda mais durante voos ou enquanto buscam alimento. Como não possuem glândulas sudoríparas, dependem da evaporação pelas vias respiratórias para dissipar calor. Esse mecanismo aumenta a perda de água e eleva o risco de desidratação.

Os filhotes estão entre os mais afetados. Segundo a Liga para a Proteção das Aves, organização francesa de conservação da fauna, o calor extremo pode levar os jovens animais a abandonar o ninho antes da hora ou até a cair do ninho enquanto buscam encontrar ar. Neste sentido, espécies que costumam nidificar sob telhados e beirais, como andorinhas e andorinhões, estão entre as mais expostas.

No caso dos mamíferos, ainda que consigam regular a temperatura corporal por meio da transpiração ou da respiração acelerada, esse processo também aumenta a perda de água. Segundo Lois, do Museu Nacional de História Natural de Paris, os animais menores sofrem proporcionalmente mais com esse mecanismo. O risco de hipertermia e desidratação é especialmente elevado para espécies como ouriços e pequenos roedores.

Ondas de calor também têm sido associadas a episódios de mortalidade em massa de morcegos. Em janeiro deste ano, milhares de raposas-voadoras morreram durante uma onda de calor no sudeste da Austrália.

Animais adaptados ao frio também enfrentam dificuldades. Espécies como ursos, bisões, renas e alces carregam pelagens espessas que ajudam a conservar calor em baixas temperaturas, mas se tornam uma desvantagem em períodos de calor intenso.

Um estudo publicado em maio na revista Biology Letters concluiu que apenas uma semana com temperaturas máximas diurnas de 27°C já aumenta significativamente o risco de doenças e morte em coalas.

Calor extremo afeta ecossistemas aquáticos

Nos ambientes aquáticos, os efeitos também podem ser severos. O aumento da temperatura reduz a quantidade de oxigênio dissolvido na água ao mesmo tempo em que eleva as necessidades metabólicas dos peixes. Essa combinação favorece o estresse térmico, aumenta a incidência de doenças e pode comprometer a reprodução das espécies. Em agosto de 2018, durante uma onda de calor que atingiu a Europa, cerca de uma tonelada de peixes mortos foi encontrada em trechos do rio Reno, na Suíça.

A situação é particularmente crítica para os invertebrados, cuja temperatura corporal depende diretamente do ambiente. Quando os limites de tolerância térmica são ultrapassados, as consequências podem ser severas, especialmente porque muitos desses organismos têm pouca capacidade de deslocamento. Um dos exemplos mais marcantes ocorreu em 2021, durante uma onda de calor no Pacífico Norte. Na ocasião, mais de um bilhão de mexilhões, moluscos e estrelas-do-mar morreram ao longo da costa.

Já os anfíbios, como sapos, rãs e tritões, também estão entre os grupos mais ameaçados. Dependentes de ambientes úmidos, eles sofrem tanto com as altas temperaturas quanto com a redução da disponibilidade de água provocada pelas secas. Além disso, a reprodução pode ser prejudicada quando áreas de desova secam antes que os ovos completem seu desenvolvimento.

Já répteis como lagartos e cobras precisam reduzir suas atividades durante os períodos mais quentes para evitar o superaquecimento. Essa estratégia, porém, pode dificultar a busca por alimento. “Às vezes, como estratégia de adaptação, eles se tornam noturnos. O problema é que as presas e os recursos alimentares nem sempre estão ativos nos mesmos horários”, explicou Lois à AFP.

À medida que as mudanças climáticas intensificam a frequência e a duração das ondas de calor, cientistas alertam que os impactos sobre a biodiversidade tendem a se tornar mais amplos, afetando desde espécies individuais até o funcionamento de ecossistemas inteiros.

Fonte: Um só Planeta

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