Uma nova avaliação das Nações Unidas (ONU) sobre a saúde dos oceanos documenta uma “crise crescente”, à medida que as mudanças climáticas, a poluição, a sobrepesca e a perda de biodiversidade ameaçam os ecossistemas marinhos cruciais para a sobrevivência humana.
O resultado é a elevação do nível do mar, a acidificação dos oceanos, a morte dos recifes de coral e a diminuição dos estoques pesqueiros, que fornecem 20% da proteína animal consumida pelos humanos, segundo o relatório divulgado em 8 de junho e compilado por 600 cientistas de 86 países. Esta é a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos desde 2015 e a última atualização foi feita em 2021.
“A próxima década é decisiva: sem uma ação global rápida e coordenada, a saúde dos oceanos continuará a declinar, ameaçando a estabilidade climática, a resiliência da biodiversidade, a segurança alimentar, os meios de subsistência e o bem-estar de bilhões de pessoas”, disse Ian Butler, um dos principais autores da avaliação e ecologista marinho do governo australiano, em um e-mail.
A avaliação estimou que até 45% da atividade econômica global ocorre nas costas do mundo e que 3 bilhões de pessoas vivem a menos de 100 quilômetros (km) do oceano.
“A contaminação e a poluição, como o lixo plástico, o escoamento agrícola, o esgoto e os produtos químicos, são os principais fatores que contribuem para o declínio da saúde dos oceanos”, afirma o relatório de 1.352 páginas. Esses poluentes, por sua vez, estão se acumulando em organismos marinhos, e seu efeito é amplificado ao longo da cadeia alimentar, chegando aos animais consumidos por pessoas.
De acordo com os dados mais recentes disponíveis, cerca de 38% dos estoques pesqueiros globais em 2021 estavam sendo explorados em um ritmo mais acelerado do que a capacidade de reposição das populações, um aumento em relação aos 35% registrados dois anos antes.
A pressão sobre a pesca é agravada pelos impactos das mudanças climáticas, que estão dizimando os recifes de coral, habitat de 25% da vida marinha. Segundo a avaliação, um sexto da absorção de calor pelos oceanos nos últimos 70 anos ocorreu apenas entre 2018 e 2023. O aumento da temperatura da superfície do mar gerou furacões e ciclones tropicais mais destrutivos e levou algumas espécies marinhas a migrar para águas mais frias, prejudicando a pesca local.
Os cientistas afirmaram que o rápido aquecimento dos oceanos também é responsável por 30% a 50% da elevação do nível do mar, colocando em risco as comunidades costeiras. À medida que a água aquece, seu volume aumenta. Entre 2013 e 2023, a elevação global do nível do mar foi de 4,3 milímetros por ano, em comparação com 2,1 mm por ano entre 1993 e 2002.
Embora a pandemia tenha reduzido temporariamente a pressão sobre os oceanos devido à desaceleração da atividade econômica, a industrialização dos ecossistemas marinhos continua, afirmaram os pesquisadores, com as operações de mineração em águas profundas planejadas representando riscos potenciais para os ecossistemas do fundo do mar.
Embora a avaliação tenha sido abrangente, os pesquisadores reconheceram que muito ainda se desconhece sobre o oceano, observando que apenas 27% do fundo do mar global foi mapeado. O relatório está sendo divulgado em um momento em que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, avança com o desmantelamento da mais extensa rede mundial de sensores e plataformas de observação oceânica.
“Pouco se compreende a vulnerabilidade da biodiversidade marinha, da genética das espécies e das comunidades microbianas, particularmente em águas profundas, às mudanças climáticas e às atividades econômicas emergentes”, afirma o relatório.
Ainda assim, Butler afirmou que havia motivos para otimismo, destacando a ratificação, no ano passado, do tratado da ONU sobre biodiversidade em alto-mar, que permite a criação de áreas marinhas protegidas em águas internacionais.
“Acredito que, com ações globais urgentes e coordenadas, ainda podemos restaurar sua saúde para garantir um oceano saudável e biodiverso, o que beneficiaria toda a vida na Terra”, disse ele.
Traduzido de The Malaysian Reserve.