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SEQUESTRO DE CARBONO

O que o pequeno lambari tem a ver com o clima? Estudo traz resposta inesperada

Estudo identificou carbono derivado de um potente gás de efeito estufa na biomassa de 11 espécies de peixes; espécie nativa se destacou nos resultados.

19 de junho de 2026
Rodrigo Peronti
3 min. de leitura
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Foto: demianlescano/iNaturalist

Um peixe de poucos centímetros popularmente conhecido como “piaba” ou apenas lambari, encontrado em reservatórios do Sul do Brasil, pode desempenhar um papel inesperado em uma das maiores questões ambientais do planeta.

Pesquisadores descobriram que espécies de peixes nativos incorporam à própria biomassa parte do carbono derivado do metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes conhecidos. O destaque ficou com o lambari-miúdo (Psalidodon minor), espécie que apresentou os maiores índices desse processo em um reservatório do Paraná.

O estudo foi realizado no reservatório do Passaúna, na Região Metropolitana de Curitiba, e publicado na revista científica Water Biology and Security.

Lambari vs. mudanças climáticas

O metano é produzido durante a decomposição da matéria orgânica em ambientes com pouco oxigênio, como os sedimentos localizados no fundo dos reservatórios. Segundo os pesquisadores, essas estruturas artificiais têm papel importante no ciclo global do carbono e podem contribuir significativamente para as emissões desse gás.

No entanto, nem todo o metano produzido chega diretamente à atmosfera.

Parte dele é consumida por bactérias especializadas, conhecidas como metanotróficas. Essas bactérias entram na cadeia alimentar por meio de pequenos organismos aquáticos e, posteriormente, chegam aos peixes.

Ao analisar 11 espécies de peixes, os pesquisadores encontraram carbono derivado do metano em todas elas.

“Nós encontramos carbono derivado do metano em todas as espécies de peixes analisadas, incluindo mesopredadores e consumidores de topo”, escreveram os autores do estudo.

A proporção registrada variou entre aproximadamente 5% e 16% da biomassa dos animais.

Biomassa ‘cheia’ de carbono

O maior valor apareceu justamente no lambari-miúdo. Em média, 15,68% da biomassa da espécie era formada por carbono derivado do metano. Em alguns indivíduos, esse percentual ultrapassou 20%.

Segundo os pesquisadores, o resultado reforça a importância dos peixes neotropicais na dinâmica desse gás de efeito estufa.

“Esses resultados destacam o importante papel das espécies de peixes neotropicais na assimilação de carbono derivado do metano”, afirmam os autores.

Os cientistas também investigaram o papel de espécies nativas e exóticas nesse processo.

Entre elas está o black bass (Micropterus salmoides), peixe originário da América do Norte e considerado uma das espécies invasoras mais bem-sucedidas do mundo.

A pesquisa identificou que o predador consome com frequência o lambari-miúdo, justamente a espécie que mais incorpora carbono derivado do metano.

Para os autores, essa relação merece atenção porque alterações nas populações desse pequeno peixe podem afetar a forma como o carbono circula dentro da cadeia alimentar.

“O estudo destaca o papel crucial das espécies de peixes neotropicais na assimilação de carbono derivado do metano e evidencia a ameaça que espécies não nativas representam para esse processo”, escrevem os pesquisadores.

Embora invisível para quem observa a superfície da água, o fenômeno ajuda a mostrar como biodiversidade e clima estão conectados.

Ao incorporar parte do carbono derivado do metano à biomassa dos organismos aquáticos, a cadeia alimentar passa a armazenar temporariamente esse carbono dentro do ecossistema.

Segundo os autores, compreender essas interações pode contribuir para estratégias de conservação capazes de manter processos naturais importantes para o funcionamento dos reservatórios e para o ciclo global do carbono.

Quem é o lambari-miúdo?

Nome popular: Lambari-miúdo

Nome científico: Psalidodon minor

Grupo: Peixe de água doce da ordem Characiformes

Família: Acestrorhamphidae (anteriormente incluída em Characidae)

Distribuição: Espécie nativa da região Sul do Brasil, registrada na bacia do rio Iguaçu, onde está localizado o reservatório do Passaúna, no Paraná.

Habitat: Ambientes de água doce, incluindo rios, riachos e reservatórios.

Alimentação: Classificada pelos autores do estudo como mesopredadora. Os resultados indicam forte associação com organismos aquáticos da base da cadeia alimentar, o que ajuda a explicar sua elevada incorporação de carbono derivado do metano.

Fonte: G1

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