O aquecimento acelerado dos oceanos está reduzindo as áreas habitadas por aves marinhas como albatrozes e petréis, obrigando esses animais a percorrer distâncias cada vez maiores em busca de locais adequados para viver. A conclusão é de um estudo da Universidade de Reading, no sul da Inglaterra, publicado na revista científica Nature Climate Change.
Os pesquisadores analisaram mais de 120 espécies da ordem Procellariiformes — grupo que inclui albatrozes, petréis, pardelas e painhos — para entender como esses animais responderam às mudanças climáticas ao longo de milhões de anos. Para isso, a equipe cruzou árvores evolutivas, registros climáticos antigos e dados de temperatura dos oceanos.
O estudo mostra que, diferentemente de alguns peixes e outros organismos marinhos, essas aves não diminuem de tamanho físico quando o clima aquece rapidamente. Em vez disso, elas passam a ocupar áreas menores do oceano e precisam voar mais longe para encontrar condições favoráveis.
Segundo o pesquisador Jorge Avaria-Llautureo, que liderou o trabalho na universidade britânica, a velocidade do aquecimento atual, provocado pela queima massiva de combustíveis fósseis, é o principal problema.
“Essas aves já sobreviveram a grandes mudanças climáticas no passado, mas nunca na velocidade que vemos hoje. A história mostra que, quando as temperaturas aumentam rapidamente, elas não se adaptam fisicamente. Em vez disso, são forçadas a abandonar partes de seu território e viajar mais para sobreviver”, afirmou.
Espécies expostas às alterações mais rápidas de temperatura ao longo da história acabaram com áreas de distribuição menores e precisaram percorrer distâncias maiores.
A pesquisa aponta que a taxa atual de aquecimento dos oceanos é cerca de 10 mil vezes mais rápida do que aquela à qual essas aves conseguiram se adaptar ao longo de milhões de anos. Historicamente, elas lidavam com aumentos de aproximadamente 0,00002°C por década. Hoje, os oceanos aquecem cerca de 0,13°C por década.
Os autores também criaram modelos estatísticos capazes de reconstruir onde essas aves viveram durante antigas mudanças climáticas e usaram essas informações para projetar cenários até 2100.
Em um cenário de menores emissões de gases de efeito estufa, menos espécies seriam afetadas e as perdas de território seriam menores. Já no pior cenário de aquecimento, mais de 70% das espécies devem perder parte de sua área de ocorrência. As espécies mais impactadas também seriam obrigadas a percorrer distâncias ainda maiores para sobreviver.
Quatro aves marinhas aparecem em situação de risco real de extinção nesse cenário: Petrel-de-Galápagos; Petrel-de-Jouanin; Pardela-de-Newell; Painho-de-ventre-branco
As aves marinhas já estão entre os grupos de aves mais ameaçados do planeta. Além da importância para a biodiversidade, elas ajudam a manter o equilíbrio dos ecossistemas marinhos ao transportar nutrientes e contribuir indiretamente para a saúde das pescarias.
O pesquisador líder, Jorge Avaria-Llautureo, defende que as estratégias de conservação precisam ir além da proteção das áreas onde essas espécies vivem atualmente. “Os esforços de conservação precisam focar não apenas nos locais onde as aves marinhas vivem hoje, mas também nas áreas que elas precisarão alcançar no futuro”, disse.
Fonte: Um só Planeta