Em meio às condições extremas dos desertos africanos, uma ave desenvolveu uma estratégia impressionante para garantir a sobrevivência da prole. O cortiçol-de-namaqua (Pterocles namaqua), espécie adaptada a ambientes áridos, é capaz de percorrer grandes distâncias diariamente em busca de água e transportá-la diretamente até o ninho.
Assim como outras aves do gênero Pterocles, o cortiçol vive em regiões desérticas e savanas onde a água é escassa. Para sobreviver, o animal precisa se hidratar todos os dias, o que pode significar voos de até 150 quilômetros, já que as fontes costumam estar distantes das áreas de reprodução.
Penas que funcionam como reservatórios
Para contornar o desafio da distância, os machos adultos desenvolveram uma adaptação única: eles transportam o líquido nas próprias penas.
“Os machos absorvem água nas penas do peito que, por sua massa, podem reter de três a quatro vezes mais água do que uma esponja moderna”, explica o ornitólogo Fernando Igor de Godoy.
Segundo o especialista, o processo é direto: ao encontrar uma fonte, o macho se agacha e balança o corpo para que as penas absorvam o líquido. Em seguida, voa de volta ao ninho. “Os filhotes bebem diretamente das penas, bicando e sugando a água armazenada”, detalha Godoy.
Características e camuflagem
De porte semelhante ao de um pombo, a ave tem corpo atarracado e pernas curtas, movimentando-se de forma desajeitada no solo. No ar, porém, apresenta um voo rápido e asas pontiagudas.
Há diferenças marcantes entre os sexos:
- Macho: possui rosto e cabeça amarelados com um par de faixas pretas e brancas no peito.
- Fêmea: apresenta plumagem discreta e manchada, o que garante a camuflagem perfeita no ambiente desértico.
A alimentação é baseada em sementes de gramíneas. A espécie costuma ser vista próxima a fontes de água no início da manhã ou ao entardecer, momentos em que emite seu chamado característico, um “kelkiw-wyn” trêmulo de longo alcance.
Evolução e sobrevivência
O comportamento não é exclusivo do cortiçol-de-namaqua, mas é uma marca do gênero Pterocles, que reúne cerca de 14 espécies. A habilidade é fruto de um longo processo evolutivo.
“Surgiu por seleção natural em ambientes com recursos limitados. É fundamental para a reprodução, pois os filhotes não conseguiriam sair do ninho para beber água. Sem essa estratégia, eles morreriam de sede ou pelo calor extremo”, conclui o ornitólogo.
Fonte: G1