Entre gritos, bombas de gás e jatos d’água que marcavam os protestos por educação no Chile, a figura de um cachorro preto, sem raça definida, começou a chamar atenção ao avançar ao lado dos manifestantes, sem recuar diante da repressão policial. Sem tutor definido e vindo das ruas, ele se tornaria conhecido como Negro Matapacos e passaria a ocupar, por escolha própria, um dos movimentos sociais mais marcantes do país.
Negro passou a acompanhar atos em meio à forte repressão do governo do então presidente Sebastián Piñera. Em um cenário marcado por violência policial, com uso de gás lacrimogêneo e canhões de água contra civis, o cachorro se destacava por se recusar a sair da linha de frente, enfrentando as tropas de choque e protegendo manifestantes.
Relatos da época indicam que o cão, que vivia em situação de rua, demonstrava comportamento seletivo, direcionando suas investidas apenas contra agentes de repressão. Sua presença constante nos protestos fez com que fosse acolhido coletivamente pelos ativistas, que passaram a alimentá-lo, cuidar de sua higiene e protegê-lo.
Como forma de reconhecimento, os manifestantes passaram a colocar nele um lenço vermelho, que se tornou sua marca registrada e era substituído após confrontos. A imagem do cachorro SRD, resistente e destemido, rapidamente se espalhou pelo país, transformando-o em um símbolo da luta por direitos sociais e da conexão entre humanos e outros animais em contextos de injustiça.
O impacto de sua trajetória ultrapassou as ruas. Em 2013, o documentário Matapaco, dirigido por Víctor Ramírez, Carolina Garcia, Nayareth Naim, Francisco Millán e Sergio Medel, recebeu o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Santo Tomás de Viña del Mar. Além disso, estátuas em sua homenagem foram instaladas em cidades como Santiago e Iquique.
Negro Matapacos morreu em 26 de agosto de 2017, devido à velhice, mas sua memória permanece viva como um exemplo de coragem, estampado em diversos murais do país.