Durante milhões de anos, elefantes africanos cruzaram o continente livremente, misturando genes entre populações separadas por milhares de quilômetros.
Esse movimento contínuo foi o que manteve a saúde genética da espécie ao longo de eras. Mas esse equilíbrio está se desfazendo — e um novo estudo mostra que as consequências já são visíveis no DNA dos animais.
Publicado na última semana na revista “Nature Communications”, o maior mapeamento genômico de elefantes africanos já realizado analisou 232 genomas completos de animais coletados em 17 países africanos.
Os resultados revelam um retrato preocupante: onde os elefantes perderam a capacidade de se mover e se misturar, os sinais de isolamento genético já aparecem — e em alguns casos, de forma severa.
“Nosso estudo mostra que, até recentemente, os elefantes estavam conectados por vastas distâncias. Essa liberdade de movimento criou robustez genética porque as populações se misturavam. Hoje, o quadro é diferente”, explica ao g1 Patrícia Pečnerová, professora assistente da Universidade de Copenhague e pesquisadora-líder do estudo.
“Os elefantes vivem em um mundo onde o espaço é cada vez mais restrito e algumas populações estão se tornando isoladas”.
O estudo é preciso ao descrever os achados: os elefantes africanos foram historicamente conectados por todo o continente, e a fragmentação recente de habitats está levando ao isolamento genético e a sinais de consanguinidade em algumas populações.
As situações mais críticas estão nas bordas do continente. Na Eritreia e na Etiópia, populações pequenas e remotas vivem completamente cercadas por assentamentos humanos e áreas agrícolas, a mais de 400 quilômetros dos parentes mais próximos.
Nesses grupos, os pesquisadores encontraram altos índices de cruzamentos entre parentes, baixa variação genética e acúmulo de mutações que tornam os animais mais vulneráveis a doenças e mudanças ambientais.
“A consanguinidade é uma preocupação séria porque variantes genéticas deletérias recessivas serão expressas com mais frequência em uma população consanguínea. A redução da diversidade genética pode levar à menor resiliência e ao aumento da suscetibilidade a patógenos”, diz Alfred Roca, professor da Universidade de Illinois e coautor do estudo.
Na África Ocidental, o quadro é igualmente preocupante, mas com uma reviravolta inesperada.
Apesar de décadas de caça ao marfim e isolamento, elefantes savana do centro-oeste africano apresentam níveis surpreendentemente altos de variação genética.
A explicação: genes de elefantes-da-floresta — uma espécie distinta — entraram nessas populações por meio de hibridização, compensando parcialmente o que havia sido perdido.
O que explica as diferenças
O contraste mais marcante do estudo está no sul da África. Na região de Kavango-Zambezi, uma área de proteção transfronteiriça que abrange cinco países e cobre 520 mil km², os elefantes ainda se movem livremente entre áreas protegidas.
O resultado é visível no genoma: as populações ali mantêm alta diversidade genética e poucos sinais de isolamento.
“Em áreas onde as populações de elefantes permanecem relativamente bem conectadas, a diversidade genética é preservada. Por outro lado, em regiões com histórico de isolamento, vemos suas consequências genéticas, como menor diversidade ou maior consanguinidade”, acrescenta Pečnerová ao g1.
O estudo também traz clareza sobre algo que ainda gera confusão: elefantes savana e elefantes floresta são duas espécies distintas, com trajetórias evolutivas separadas há cerca de 4 milhões de anos, um intervalo de tempo similar ao que separa leões de tigres.
Mais de 85% de toda a variação genética encontrada no estudo se deve a essa diferença entre as espécies.
O estudo também amplia uma aplicação prática importante: rastrear a origem do marfim apreendido. Com genomas completos, a identificação geográfica se torna mais precisa.
Os pesquisadores destacam ainda que conservar os elefantes passa por proteger as áreas que conectam suas populações.
Mesmo em forte declínio, os elefantes-da-floresta ainda mantêm alta diversidade genética, o que abre uma janela de oportunidade para ações de proteção.
Fonte: G1