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RECORDE

Jornada mais longa já registrada de uma baleia foi do Brasil até a Austrália por mais de 15 mil km

Pesquisadores documentaram a partir de fotos das caudas destes gigantes dos mares a jornada mais longa já registrada em fotografias

20 de maio de 2026
4 min. de leitura
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Detalhes da cauda de uma das baleias analisadas pela pesquisa. Foto: Reprodução do artigo

Uma pesquisa científica publicada nesta terça-feira (19/05) revelou distâncias recordes percorridas por populações de baleias jubarte nos oceanos. Para alcançar o resultado, os pesquisadores analisaram cerca de 20 mil fotografias das caudas das baleias tiradas desde a década de 1980, utilizando a plataforma de ciência cidadã Happywhale. No estudo, identificaram dois animais que haviam cruzado o Oceano Pacífico e alcançado o outro lado da América do Sul, na costa brasileira.

As descobertas estabeleceram novos recordes para as maiores distâncias já confirmadas entre avistamentos de baleias jubarte individuais em qualquer lugar do mundo.

Localização geográfica e documentação fotográfica da troca de indivíduos entre baleias jubarte do leste da Austrália e do Brasil. Foto: Reprodução do artigo

Segundo o estudo, uma mesma baleia fotografada em Hervey Bay, na Austrália, em 2013, foi fotografada na costa de São Paulo, no Brasil, em 2019, depois de percorrer uma distância oceânica em linha reta de 14.200 quilômetros. A segunda baleia foi fotografada em 2003 em Abrolhos — o principal berçário de jubartes do Brasil, na Bahia — e depois em setembro de 2025, 22 anos depois, em Hervey Bay, a 15.100 km, a maior distância já documentada entre avistamentos de uma única baleia.

Tudo isso foi possível graças a análise fotográfica das caudas das baleias. Assim como as impressões digitais humanas, elas são únicas para cada indivíduo, com padrões de pigmentação, formato geral, cicatrizes ou marcas exclusivas utilizadas para identificação.

Ao processar as fotografias com um algoritmo automatizado de reconhecimento de imagens e, em seguida, verificar visualmente cada possível correspondência, a equipe constatou as distâncias percorridas pelas duas baleias jubarte em questão.

Os pesquisadores afirmam que essas descobertas revelam, no entanto, que essas travessias são muito raras: em mais de quatro décadas de dados abrangendo quase 20.000 indivíduos, apenas dois animais desse tipo foram encontrados, representando apenas 0,01% das baleias identificadas.

Stephanie Stack, da Universidade Griffith, na Austrália, e coautora do artigo publicado pela Royal Society Open Science, afirmou que era geralmente aceito que as baleias jubarte permaneciam em populações distintas em suas áreas de reprodução. “Nunca houve nenhuma evidência fotográfica que ligasse essas duas populações antes”, disse ela à rede ABC.

De acordo com a pesquisadora, viajar para locais onde estão outras populações de baleias ajudaria a ampliar a diversidade genética, à medida que os animais se recuperam dos impactos da caça às baleias. O intercâmbio também promove uma transmissão cultural, com as baleias transmitindo comportamentos e conhecimentos umas às outras.

“Descobertas como esta só são possíveis graças ao investimento em programas de pesquisa de longo prazo, com duração de várias décadas, e à colaboração internacional. Essas baleias foram fotografadas com décadas de diferença, por pessoas diferentes, em partes opostas do mundo, separadas por dois oceanos distintos, e ainda assim conseguimos conectar suas trajetórias”, disse Stephanie Stack.

O Dr. Wally Franklin, cientista marinho do Projeto Oceania, lembrou que a Ciência já possuia o conhecimento de que as baleias jubarte do leste e oeste da África, do leste e oeste da Austrália e do leste e oeste do Brasil migram para o Polo Sul, mas “há algum tempo que se questiona em que medida essas baleias se misturam naquela região”.

As descobertas corroboram o que os cientistas chamam de hipótese da “Troca no Oceano Antártico”: a ideia de que baleias jubarte de diferentes populações reprodutoras se encontravam ocasionalmente em áreas de alimentação comuns na Antártica e que alguns indivíduos seguiam então uma rota migratória diferente para casa, acabando, talvez pelo resto de suas vidas, em uma região de reprodução totalmente nova.

“O que [o artigo] ilustra é a oportunidade que nós, cientistas, estamos obtendo ao acessar dados fotográficos submetidos a essas plataformas de ciência cidadã. Qualquer pessoa que fotografe a cauda de uma baleia em qualquer lugar do mundo pode enviar sua foto para esta plataforma global, e muitos pesquisadores também estão contribuindo com seus catálogos, para que todos possam ser comparados entre si”, analisou.

Fonte: Um só Planeta

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