Golfinhos treinados para localizar minas, leões-marinhos usados na vigilância de bases navais e baleias transformadas em instrumentos militares. O que parece roteiro de ficção continua acontecendo em pleno século 21. Mamíferos marinhos seguem sendo explorados por forças armadas ao redor do mundo em programas que submetem animais altamente inteligentes e sociais a confinamento, treinamento forçado e situações ligadas a guerras e operações militares.
A discussão voltou à tona após rumores envolvendo supostos “golfinhos kamikaze” no Oriente Médio reacenderem o debate internacional sobre o uso de animais em ações militares. Embora não existam provas oficiais sobre ataques suicidas, documentos, programas navais e registros históricos confirmam há décadas o treinamento de golfinhos, focas e leões-marinhos para localizar mergulhadores, detectar explosivos, recuperar equipamentos e proteger instalações militares.
Por trás da propaganda militar que frequentemente romantiza esses programas, está a exploração de animais sencientes reduzidos a ferramentas de guerra. Golfinhos são escolhidos por sua ecolocalização extremamente precisa. Leões-marinhos são usados pela capacidade de localizar objetos submersos. Em vez de viverem livres em oceanos, muitos acabam confinados em instalações militares, submetidos a treinamento intensivo e deslocados para áreas de conflito humano.
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Os Estados Unidos mantêm há décadas um programa de mamíferos marinhos ligado à Marinha. A antiga União Soviética também desenvolveu projetos semelhantes, posteriormente herdados pela Rússia. Há ainda registros históricos envolvendo Reino Unido e outros países. Em diferentes períodos, animais foram utilizados em operações durante a Guerra Fria, na Guerra do Iraque e em áreas estratégicas do Mar Negro.
Especialistas em bem-estar animal criticam há anos o uso militar de mamíferos marinhos, apontando sofrimento físico e psicológico associado ao confinamento, à privação de comportamento natural e ao treinamento coercitivo. Golfinhos estão entre os animais mais inteligentes do planeta, possuem estruturas sociais complexas, formas sofisticadas de comunicação e reconhecida capacidade cognitiva. Ainda assim, continuam sendo tratados como equipamentos dentro da lógica militar.
A exploração desses animais em guerras se soma a outras formas históricas de violência humana contra mamíferos marinhos, como captura para parques aquáticos, caça comercial, confinamento e pesca predatória. Em muitos casos, os mesmos animais retirados da natureza para entretenimento também abastecem programas militares e mercados internacionais ligados ao cativeiro.
O uso militar de golfinhos e outros mamíferos marinhos revela uma contradição profunda: espécies admiradas por sua inteligência e sensibilidade seguem submetidas a sistemas que as transformam em instrumentos de vigilância, combate e defesa armada. Enquanto tecnologias avançam rapidamente, práticas baseadas na exploração animal continuam sendo mantidas por interesses estratégicos e militares.