
A despedida da gata Pingú marcou um momento inédito em Itapira, no interior de São Paulo. Na tarde de terça-feira (07/07), a família Colferai realizou o primeiro sepultamento de um animal doméstico nos cemitérios públicos do município desde a entrada em vigor da lei municipal, promulgada em abril deste ano, que passou a permitir o enterro de cães e gatos nos cemitérios da Saudade e Parque Municipal da Paz. A cerimônia simbolizou a aplicação prática da nova legislação e mostrou uma mudança social cada vez mais perceptível na forma como os animais são reconhecidos dentro das famílias brasileiras.
Pingú viveu durante 19 anos ao lado de seus tutores. Diagnosticada com doença renal crônica e com suspeita de um câncer que atingia diferentes órgãos, a gata teve seu quadro clínico agravado de forma irreversível. Diante do sofrimento e da ausência de perspectivas terapêuticas, a família optou pela eutanásia, procedimento indicado na medicina veterinária quando há comprometimento severo da qualidade de vida do animal e que deve ser realizado com critérios técnicos e éticos.
O sepultamento ocorreu no túmulo da família, no Cemitério da Saudade, reunindo a tutora Francisca Avancini Colferai, o marido Jair, a filha Simone e a neta Júlia. O pequeno caixão branco foi levado por Jair e Simone, enquanto Júlia carregava um vaso de flores destinado ao local onde a gata passou a descansar. Fotografias registradas pela família mostram momentos da vida de Pingú, incluindo comemorações de aniversário, retratando o espaço afetivo que ela ocupava ao longo de quase duas décadas de convivência.

Emocionada, Francisca resumiu a relação construída com a gata ao longo dos anos. “Ela era que nem uma filha. Os filhos cresceram, casaram. Depois as netas também voaram. Ficamos só eu, o Jair e ela. Era minha companheira. Onde eu ia, ela ia atrás. Se eu descia para o quintal, ela ia também. Na hora de dormir, ela dormia no meu pé.”
Segundo Francisca, a decisão de enterrar Pingú no jazigo da família foi motivada pelo reconhecimento do lugar que a gata ocupava em suas vidas. Embora outros animais adotados pela família tenham sido sepultados em uma chácara, a venda da propriedade e, sobretudo, o significado afetivo da convivência com Pingú levaram à escolha do cemitério público. “A gente tem uma chácara onde enterramos todos os animais que adotamos ao longo dos anos, mas lá está à venda. A Pingú chegou bem nenenzinha na nossa casa. Mas eu decidi enterrá-la aqui no túmulo da família porque ela é de casa. É querida como alguém da família mesmo”, afirmou.
A autorização para o sepultamento de animais em cemitérios públicos é uma iniciativa ainda pouco comum no Brasil. Em diferentes municípios, normas semelhantes vêm sendo discutidas ou implementadas para atender famílias que desejam uma alternativa ao enterro em propriedades particulares ou à cremação. Em geral, essas leis estabelecem critérios sanitários específicos e restringem o procedimento a jazigos pertencentes à própria família, buscando compatibilizar o acolhimento dessa demanda com as exigências da saúde pública e da administração dos cemitérios.
Em Itapira, a mudança legislativa é parte de uma transformação cultural observada nas últimas décadas. Estudos sobre a relação entre humanos e animais apontam que cães e gatos deixaram de ser vistos predominantemente como animais destinados à guarda ou ao controle de pragas e passaram a ocupar um papel de convivência afetiva. Esse vínculo tem sido reconhecido também pelo Direito brasileiro, que, embora ainda classifique os animais como bens no Código Civil, passou a incorporar entendimentos judiciais que consideram sua natureza senciente e o valor dos laços familiares estabelecidos com seus tutores em diferentes tipos de litígios.
Para o administrador dos cemitérios da Saudade e do Parque Municipal da Paz, Ed Márcio Damião dos Reis, o primeiro sepultamento representa uma consequência natural dessa mudança social. Segundo ele, desde a aprovação da lei era esperado que a nova possibilidade viesse a ser utilizada pelas famílias. Em sua avaliação, muitos cães e gatos são reconhecidos como integrantes da família, e permitir que sejam sepultados ao lado de seus tutores representa uma resposta compatível com essa realidade.
A experiência de Itapira também mostra como políticas públicas voltadas aos animais domésticos vêm se ampliando para além de questões relacionadas ao abandono, à saúde ou ao controle populacional. O luto pela perda de um animal passou a receber maior atenção de pesquisadores das áreas da psicologia, da medicina veterinária e das ciências sociais, que reconhecem a intensidade desse vínculo e os impactos emocionais decorrentes da separação. Ao oferecer uma alternativa para o ritual de despedida, o município responde a uma demanda que, durante muito tempo, foi ignorada pelas políticas públicas.
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