Enquanto companhias aéreas defendem a segurança do serviço, histórias como a de Nacho, perdido no aeroporto de Guarulhos em abril, expõem falhas graves e deixam tutores sem respostas. Um caso real que revela o que acontece longe dos olhos dos passageiros quando animais são tratados como bagagem.
Quando o público formado por tutores reclama que transportar seus animais domésticos no porão do avião é compará-los a uma mala, as companhias aéreas ignoram o descontentamento dos passageiros, batem no peito e garantem que o serviço é seguro.
Como questionar? Afinal, nos Estados Unidos, o DOT (Departamento de Transportes dos Estados Unidos) publicou em 2024 um relatório com os dados: morre um cachorro a cada 16 mil. São apenas 0,0062%. Apenas para quem? Certamente, não para os que são vítimas deste serviço dito “seguro”.
Por onde passam as caixas de transporte
A engenheira de produção Renata Mollossi Rambo poderia estar na lista das “poucas” pessoas vítimas do transporte aéreo de animais no porão, que trata, sim, os animais como malas, se não fosse pelo caminhoneiro Josimar Rodrigues, que encontrou o kennel do beagle Nacho encostado na parede do Terminal 2 de Guarulhos. “Eu esperava as malas. Olho uma caixa abandonada, fui ver e encontrei um cachorro assustado dentro dela. Estava muito frio. Fiquei com pena, vi o número de telefone da proprietária do cachorro na caixa, mandei uma mensagem com um vídeo para ela. Achei uma injustiça. Nem com um ser humano se pode fazer isso. A Latam não sabia onde estava o cachorro”, relata Rodrigues.
Não se trata apenas do porão da aeronave, mas também de por onde esse animal passa entre o momento do check in no balcão da companhia aérea até chegar na esteira de bagagens no destino final. Lembrando que malas podem ser perdidas, pois são objetos inanimados. Pessoas não, tampouco animais.
Talvez as companhias aéreas não tenham se dado conta, mas os animais não estão mais na categoria “animal de estimação”, eles são considerados como parte da família e conquistaram o status de filhos.
A família de Nacho
Renata e o cientista político Felipe dos Santos estão juntos há 8 anos e sempre tiveram o sonho de morar fora do Brasil. Depois de anos pesquisando, resolveram estudar alemão em Wuppertal. O Nacho já fazia parte da família e em momento algum foi cogitado em ficar fora dos planos do casal.
“O Nacho foi idealizado desde que começamos o relacionamento. O Felipe falava que teríamos um beagle e o nome seria Nacho. Quando fomos morar juntos pela primeira vez, antes mesmo de ter móveis e as chaves do apartamento, já tínhamos o novo membro da família. E, desde então, não existe Felipe e Renata sem o Nacho”, revela Renata.
Renata, que sofre de Transtorno de Ansiedade Generalizada e Transtorno de Pânico (CID-10, F41.0 e CID-11 6B00 e 6B01) com laudo do médico psiquiatra Luan Diego Marques Teixeira, procurou o advogado, especializado em direito animal, Dr. Leandro Petraglia para ter o direito de ter Nacho ao seu lado a bordo da cabine do avião.
Sendo assim, Petraglia monta o caso de Nacho, apresenta à Justiça de Lajeado-RS e conquista uma liminar para ele voar com segurança, ou seja, o juiz concorda com sua viagem na cabine.
8/4/26
Passagens compradas para o dia 8 de abril de 2026. Como é de praxe, a LATAM é comunicada. A companhia decide ir contra a liminar alegando questões de segurança, argumentando que a Anac a deixa decidir sobre o transporte de animais e que o serviço no bagageiro é seguro.
“Diante desses argumentos o juiz reconsidera a decisão e volta atrás. Ele revoga a liminar”, lamenta Petraglia, que não pode entrar com um recurso nesta modalidade de processo, por não se tratar de uma sentença.
Sem alternativa, Renata começa a pesquisar sobre o transporte no porão e treina o Nacho na caixa de transporte. “Não tinha mais o que fazer. Entrei no grupo Flying with Dogs no Facebook, que possui 95 mil membros, e escutei relatos de que a viagem no porão é segura. Identifiquei a caixa do Nacho com meus dados. Nome, telefone e características do Nacho. Escrevi em português e inglês”, revela.
No check in a Latam pediu para a cama do Nacho ser retirada de dentro da caixa de transporte. E garantiram que ele seria alimentado e hidratado na chegada em Guarulhos, antes do voo para Frankfurt.
“Choramos bastante, só de lembrar eu fico muito triste. A gente rezou pelo melhor. Eles enviaram um link por e-mail para acompanhar onde o Nacho estava. O link atualizou na espera para embarcar no avião e depois nada mais.”
Então, chegou o pesadelo
Devido uma reforma no aeroporto de Guarulhos, o desembarque demorou para acontecer e a conexão para a Alemanha foi perdida. A única preocupação de Renata era o Nacho. “Fiquei aflita, com medo que ele embarcasse e nós não. Todos os passageiros perderam o voo. O guichê estava lotado. Fui falar com a Latam, esperava ser informada sobre onde ele estava para ir buscá-lo. Eles falavam pelo rádio: vocês conseguiram averiguar o AVIH. Jamais vou esquecer essas letras”, desabafa.
Durante os áudios em que a Renata gravou relatando a sua história houve pausas longas, soluços e uma voz trêmula. É impossível escutar e não se projetar, além de sofrer junto. A gente chora com ela e pensa: quando haverá mudanças reais e nossos cães serão tratados com dignidade. Quando?
O voo da Renata chegou a Guarulhos às 22h51 e o Nacho foi encontrado às 00h48. Nessas quase duas horas, Renata e Felipe viveram o maior pesadelo: perder um filho que não fala, não pode pedir ajuda e está na mão de um sistema que o trata como um AVIH (sigla para Excesso de Bagagem).
Quando o desespero toma conta
Desesperada, ela grita: “Eu estou ouvindo vocês falarem sobre malas. Meu cachorro não é uma bagagem, é um ser vivo e ele faz parte da minha família. Eu quero saber onde ele está agora”.
Então, acontece um milagre, ela recebe uma notificação no seu telefone, quando abre o aparelho, vê o vídeo do Nacho dentro da caixa de transporte, apático sem interagir com as pessoas que estão em volta. Ela liga para o telefone do Josimar, que com seu sotaque mineiro mostra-se indignado com o descaso dado ao Nacho.
A empresária Jaqueline Garanhani também observa a caixa de transporte em um canto. Vê crianças correndo até lá e comentando: “tem um cachorro aqui.” Ela vai olhar. “O que mais me chocou foi ver que ele estava ali praticamente largado, sem nenhuma supervisão. Foi então que notei que na caixa havia o nome da tutora e os dados de contato. Decidi mandar mensagem para a Renata”, relembra.
20 minutos sem fim
Renata deixa o Terminal 3 correndo, desesperada e incrédula. Apenas vira para o time da Latam e diz: “Vocês não sabem onde ele está, mas outros passageiros encontraram ele.”
Foram 20 minutos percorridos entre um terminal e outro. Era uma mistura de alívio por saber onde o Nacho estava e a ansiedade de vencer aquela distância que a separava do seu filho.
O segurança do desembarque do terminal 2 tenta barrá-la, ela passa por baixo do braço dele. Renata e Nacho finalmente se encontram, mas Renata não consegue abrir a porta da caixa, pois está presa com um enforca gato. Todos ajudam a arrebentar e a porta de abre. Renata chora. Nacho também. É o choro do reencontro, do medo e do alívio. E a promessa: “Nunca mais vou te colocar no porão, Nacho.”
Todos em volta se emocionam. Jaqueline conta que Renata e Felipe choraram muito e que quando o Nacho os viu, seu comportamento mudou completamente. O cachorro assustado, renasceu.
A decisão que nunca deveria ter sido revogada
O protesto vem: “Em nenhum momento a Latam me pediu desculpas. Eles me tratavam com rancor e ódio, não tiveram empatia. Eles nunca acharam o Nacho, quem achou foram outros passageiros.”
Na manhã seguinte, Petraglia volta ao juiz, relata os acontecimentos e a decisão muda novamente. Dessa vez, a favor de Nacho. O cachorrinho embarca com Renata para Frankfurt, como sempre deveria ter acontecido. O avião não cai, Nacho não morde outros passageiros ou a tripulação. Pelo contrário, ele é elogiado e aquele comentário, que escutei nos 18 voos feitos ao lado da Ella, a Renata também ouviu: “Não vi que tinha cachorro a bordo.”
“Infelizmente, casos como estes nos mostram que a prática é muito mais perigosa do que a teórica segurança que as companhias tentam convencer na justiça. Em outras palavras, de nada adianta escrever uma defesa com dezenas de páginas, quando, na prática, a segurança que se diz existir, não é garantida aos animais”, pontua Petraglia.
Cães adestrados devem ter o direito de voar na cabine do avião ao lado de sua família, apresentando o laudo do adestrador. A Itália já permite cães de maior porte a bordo, fora da caixa de transporte. Só assim Renatas não terão que dizer: “Foi um trauma que passamos e que vai ficar para sempre”.
Defesa da Latam
Entrei em contato com a assessoria de imprensa da Latam. Eles não tiveram tempo de se manifestar até o fechamento desta reportagem. Assim que eu receber uma resposta, farei uma nova publicação sobre o caso. Quem sabe a Latam abra um diálogo para que possamos discutir e estudar uma forma segura de transportar cães adestrados dentro da aeronave? Eu e a Ella voamos diversas vezes na cabine das aeronaves da Latam. Inclusive, temos uma webserie gravada em parceria com a Sonho e Magia Viagens com os voos da Ella. Latam, aguardo a sua resposta ao caso Nacho e ao meu convite de debater sobre o transporte de animais domésticos na cabine.
Fonte: Estadão