Uma técnica capaz de recuperar DNA de pangolins traficados está ajudando cientistas a identificar áreas críticas da caça e rastrear rotas internacionais do comércio clandestino de animais silvestres. O estudo foi publicado na revista científica PLOS Biology por pesquisadores da Universidade de Toulouse e do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, na França.
Os pangolins, mamíferos cobertos por escamas e encontrados na África e na Ásia, estão entre os animais mais traficados do mundo. Segundo os pesquisadores, eles representam quase um terço das apreensões internacionais de fauna silvestre registradas nos últimos anos. Em diferentes países, sua carne é consumida como alimento e suas escamas são usadas na medicina tradicional.
Um dos maiores desafios para combater esse mercado ilegal é descobrir de onde vêm os animais capturados. Para isso, cientistas usam informações genéticas, mas muitas vezes o material apreendido está degradado, dificultando a análise.
No novo estudo, os pesquisadores conseguiram contornar essa limitação com uma técnica chamada “captura gênica”, que permitiu recuperar informações genômicas mesmo em amostras danificadas.
A equipe analisou mais de 700 amostras de DNA de três espécies de pangolins: o pangolim-de-sunda, o pangolim-chinês e o pangolim-de-barriga-branca. O material veio de coleções de museus, áreas de campo, mercados de carne de animais silvestres e apreensões internacionais.
Com base nas amostras de origem conhecida, os cientistas criaram um “mapa genético de referência”, usado para rastrear a provável origem geográfica de cada animal traficado.
Os resultados identificaram pontos críticos de captura no sudoeste de Camarões, em Myanmar e em diferentes regiões da África. O estudo também revelou importantes rotas de tráfico entre fronteiras da China e entre ilhas da Indonésia.
Segundo os autores, a pesquisa mostrou que o comércio doméstico e o internacional estão conectados e muitas vezes exploram as mesmas populações selvagens.
“Conseguimos demonstrar que é possível rastrear pangolins traficados até sua origem geográfica com precisão impressionante, às vezes em uma escala de poucos quilômetros”, afirmou Sean Heighton, um dos autores do estudo.
Ele destaca que isso pode tornar as ações de conservação mais eficientes, direcionando recursos limitados para áreas com maior incidência de caça.
Outro avanço apontado pelos cientistas foi o desenvolvimento de um único kit genético capaz de funcionar nas oito espécies conhecidas de pangolins, inclusive em amostras antigas preservadas em museus.
Para Philippe Gaubert, também autor do estudo, a integração entre materiais históricos e novas amostras ajudou a preencher lacunas importantes sobre as rotas do tráfico.
“O comércio doméstico de pangolins é majoritariamente local, mas ele se sobrepõe às mesmas regiões que abastecem o tráfico internacional, revelando uma cadeia conectada, e não mercados separados”, disse.
Os pesquisadores defendem agora a criação de bancos de dados genéticos mais amplos e padronizados para fortalecer investigações sobre tráfico de fauna no mundo todo, não apenas de pangolins, mas também de outras espécies ameaçadas.
Fonte: Um só Planeta