O deputado federal Luciano Bivar (MDB) defendeu o extermínio de parte dos tubarões que vivem no litoral de Pernambuco após os recentes incidentes registrados nas praias de Boa Viagem e Piedade, no Grande Recife. A declaração foi feita mesmo diante do consenso científico de que a presença desses animais na região está ligada a impactos ambientais causados por ações humanas.
A declaração ocorreu depois que uma jovem de 19 anos e um menino de 11 anos sofreram graves mordidas em dois dias consecutivos. Para o parlamentar, a solução seria “controlar” a população de tubarões. Em artigo publicado no Blog do Magno, Bivar chegou a afirmar que, sem a eliminação de parte desses predadores, a fauna marinha local desaparecerá.
“Ou exterminamos um pouco desses tubarões, ou nossa fauna marinha de Piedade e Boa Viagem desaparecerá”, escreveu o deputado, comparando a situação a casos de caça autorizada de elefantes no Quênia.
A proposta, porém, ignora que os tubarões não surgiram repentinamente nas praias urbanas de Pernambuco. A presença deles na região está relacionada a alterações ambientais provocadas por atividades humanas, especialmente pela construção do Porto de Suape, que exigiu o aterramento de estuários utilizados por tubarões-tigre como áreas de reprodução.
Além disso, especialistas destacam que as praias afetadas possuem canais profundos que fazem parte das rotas naturais desses animais. Mesmo com décadas de campanhas educativas, placas de advertência e ampla divulgação dos riscos, muitas pessoas continuam entrando no mar em áreas conhecidas pela presença de tubarões.
Apesar disso, o discurso do deputado transfere a responsabilidade para os próprios animais, como se fossem invasores de um espaço que historicamente sempre lhes pertenceu.
A reação da comunidade científica foi imediata. A secretária executiva do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), Danise Alves, classificou a proposta como “absurda”, afirmando que medidas de extermínio já foram tentadas em outros países sem sucesso e causam graves impactos ecológicos.
Segundo ela, os tubarões-tigre são animais migratórios, o que torna qualquer tentativa de eliminação local ineficaz. Já os tubarões-cabeça-chata exercem papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas costeiros. Como predadores de topo, ajudam a regular populações de outras espécies e sua remoção pode desencadear desequilíbrios em toda a cadeia alimentar.
“O tubarão-tigre é migratório. Se exterminar aqui, a população vai se manter e aumentar em outras áreas. Já o cabeça-chata é mais residente, mas sua eliminação provoca desequilíbrios que afetam a pesca, o turismo e todo o ambiente marinho”, explicou.
O professor Paulo Oliveira, do Departamento de Engenharia de Pesca da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), também rejeitou a ideia. Para ele, exterminar espécies nunca resolveu problemas ecológicos e pode agravar situações criadas justamente pela degradação ambiental causada pelos seres humanos.
Enquanto especialistas defendem mais pesquisa, monitoramento e educação ambiental, a fala de Bivar transforma vítimas da destruição de seus próprios habitats em culpados por consequências produzidas pela ação humana.
Os tubarões não escolheram compartilhar espaço com cidades, portos e empreendimentos costeiros. Foram as transformações impostas ao ambiente marinho que alteraram rotas, áreas de reprodução e dinâmicas ecológicas. Ainda assim, diante de mais um caso trágico, a proposta que emerge do debate público não é corrigir os impactos causados pelas pessoas, mas exterminar os animais que continuam apenas desempenhando o papel que exercem há milhões de anos nos oceanos.